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“A cultura do medo tem vindo a desaparecer”

Os acontecimentos trágicos associados ao 27 de Maio de 1977 deixaram marcas profundas na sociedade angolana: famílias destroçadas, ausência de debate e disputa política, cultura do medo e insegurança. O tabu só começou a ser desfeito nos últimos anos.

Para lá das causas – situações mal resolvidas associadas a divisões ideológicas, representatividade racial e etnolinguística no seio do MPLA e dos relatos dos responsáveis sobre o que aconteceu naquele período crítico, que se estendeu até meados de 1979, há um debate importante a concretizar, que se relaciona directamente com as políticas da memória. Que efeitos tiveram a violência na sociedade angolana e que causas perduram no tempo?

Para Bruno Kambundo, professor de História no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), “são várias as marcas que podem ser observadas”, fruto deste acontecimento, “que, de uma maneira geral, ceifou a vida de muitos angolanos e angolanas”.
“As consequências do 27 de Maio não podem ser reduzidas aos efeitos no seio do MPLA. Muitas das famílias que perderam entes queridos sequer tiveram a oportunidade de os enterrar, de receber um boletim de óbito e de saber, de facto, alguma coisa sobre o seu paradeiro”, frisa Bruno Kambundo.

Também o historiador Patrício Batsikama sublinha, em conversa com o Jornal de Angola, as perdas familiares e as consequências perversas que afectaram a memória colectiva do país. “Os angolanos são muito ligados às filiações simbólicas, como são os casos da linhagem (família), a terra, o local onde nasceram”, frisa Batsikama.
“Nesse sentido, o desaparecimento e a morte de inúmeras pessoas criou uma grande mágoa nacional. Quase todas as famílias em Angola perderam amigos ou familiares”, recorda o historiador.

No percurso histórico, este acontecimento fez com que se percebesse que, afinal de contas, “o processo de Independência ainda não estava consumado”, acredita Bruno Kambundo,  também membro da Associação Núcleo dos Amigos da História.
“Ainda no capítulo histórico, o 27 de Maio veio criar uma cultura do medo que, pouco a pouco, tem vindo a desaparecer”, considera Kambundo.

Se o país estava perante uma grave crise interna do MPLA, que, no fundo, arrastava-se desde a Luta de Libertação (com as dissidências, os conflitos ou os movimentos oficiais de contestação, como foram os casos da Revolta Activa ou da Revolta do Leste, entre outros), a refrega tornou-se rapidamente numa purga de dimensões nacionais e até internacionais.
Porque também não é possível retirar da equação a grande influência que o contexto internacional exerceu em Angola: na Guerra Fria (que na África Austral aqueceu bastante), que opunha as potências ocidentais, lideradas pelos EUA e antigos colonizadores, ao império soviético e seus apêndices, jogavam-se as cartadas dos apoios e alinhamentos estratégicos.

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