Bicefalia está a ser usada para afastar João Lourenço

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As movimentações no sentido de impedirem a materialização de uma situação bicéfala no MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) estão a ganhar corpo. A ideia passa por impedir que João Lourenço se candidate e seja eleito presidente do partido ao mesmo tempo que escolhe outra figura para número um da lista do MPLA às eleições gerais de 2027, dado que a lei o impede de concorrer a um terceiro mandato como Presidente da República.

Esta intenção esbarra no muro da realidade. João Lourenço tem controlo sobre os principais órgãos do partido, o bureau político e o comité central, pelo que possui uma enorme margem para fazer passar a sua estratégia, a qual passa por ser reeleito líder do partido e determinar a escolha do candidato do MPLA que lhe poderá suceder no Palácio da Cidade Alta.

Ainda assim, estão em curso iniciativas que visam demover João Lourenço de se recandidatar à liderança do MPLA no congresso marcado para 9 e 10 de dezembro. “Não seria uma coisa boa ele manter-se como presidente do MPLA”, afirmou Lopo do Nascimento, um histórico do partido, em entrevista à TPA. O antigo dirigente, que chegou a ser primeiro-ministro e secretário-geral do MPLA, mostrou-se contrário a um “poder bicéfalo” e sugeriu, nesta medida, que “o presidente devia retirar-se”.

Miguel de Almeida, membro do comité central, é outra figura que já se posicionou publicamente contra a bicefalia no partido, considerando que a liderança do MPLA e a Presidência da República devem ficar concentradas na mesma figura. Este posicionamento contra a bicefalia, assim como aquele que lhe é favorável, parte de uma presunção, a de que o MPLA ganhará as eleições gerais de setembro de 2027. Todavia, se for traçado o cenário hipotético de que João Lourenço é eleito presidente do partido e o MPLA perde as eleições, a questão do poder bicéfalo nem sequer se colocaria. Dito de outra forma, os rivais internos também não antecipam um cenário de derrota do MPLA,o que indiretamente abona a favor da forma como Lourenço tem governado o país.

Um alvo por duas vias

João Lourenço está a ser alvo de duas formas. Uma delas tem como objetivo afastá-lo do MPLA, a outra passa por lhe retirar o ascendente no processo de escolha do candidato à sua sucessão. Neste último domínio, o jogo ainda se faz na sombra, com uma exceção: Higino Carneiro é candidato à presidência do MPLA e tem a ambição de ser número 1 nas listas do partido ao ato eleitoral de 2027, condição obrigatória para ser eleito chefe de Estado.

Higino Carneiro assume-se como “outsider” e este fim de semana apresentou o seu manifesto eleitoral. O general, no documento, reconhece o trabalho de João Lourenço, “com especial ênfase na construção de equipamentos sociais, visando servir e engrandecer a nação angolana”, mas quer romper com o “status quo”, deixando nas entrelinhas críticas ao atual líder.

“Os novos tempos exigem um MPLA mais aberto, democrático, ético e próximo dos militantes e da sociedade. Um Partido que escuta, debate, corrige e lidera pelo exemplo. Um MPLA onde ninguém é maior do que o Partido, e o poder é sempre um instrumento de serviço, nunca de benefício pessoal”, defende Higino Carneiro.

Estes tempos prometem ser agitados, embora pareça óbvio que João Lourenço não vai responder pública nem diretamente aos protagonistas que o questionam. O silêncio é uma vantagem, gera ansiedade e desconforto nos adversários, e por isso ele vai mantê-lo até ao limite das possibilidades. Jornal de Negócios

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