Djacarta – O repórter angolano António Garcia, especialista em forense digital e editor-chefe do projecto Mídia News Grupos, afirmou não ter recebido qualquer notificação formal da Procuradoria-Geral da República (PGR) para se apresentar em Luanda no passado dia 28 de Abril, no âmbito de um alegado processo de inquérito.
*Ireneu Mujoco
Fonte: Pungo Andongo
Em entrevista concedida ao Pungo a Ndongo, o jornalista, residente em Djacarta, garantiu que não foi citado em nenhum processo judicial. “Até à presente data, não recebi qualquer notificação oficial ou mandado dimanado da PGR”, declarou, acrescentando que também os seus advogados não receberam qualquer comunicação formal das autoridades angolanas.
Garcia explicou que mantém contacto regular com o seu advogado, David Mendes, cujo escritório, segundo afirma, não registou qualquer notificação relacionada consigo ou com as suas actividades profissionais.
O jornalista reagiu ainda a acusações divulgadas por um portal angolano, que o associa a alegadas práticas de intimidação e extorsão de figuras governamentais, envolvendo valores superiores a 40 milhões de kwanzas.
Garcia rejeitou “categoricamente” as alegações, classificando-as como uma tentativa de difamação. Segundo disse, o seu trabalho centra-se na investigação jornalística e na verificação de factos, sublinhando que as acusações carecem de provas.
No mesmo contexto, referiu um trabalho realizado sobre o general Fernando Garcia Miala, afirmando que a sua equipa concluiu não existirem evidências que sustentassem determinadas acusações que circulavam publicamente.
Questionado sobre a ausência de registo na entidade reguladora da classe, Garcia defendeu que o jornalismo contemporâneo deve assentar sobretudo em competência técnica e ética, relativizando a importância de formalidades administrativas.
Sem confirmar explicitamente a posse de carteira profissional, sustentou que a sua legitimidade resulta da formação e do cumprimento de princípios deontológicos. O jornalista mencionou ainda casos de profissionais angolanos que, segundo ele, enfrentaram situações de perseguição, citando Rafael Marques, Coque Mucuta e Carlos Alberto.
Garcia afirmou também que pretende avançar com acções judiciais contra os autores das denúncias, alegando danos à sua honra e reputação.
No plano político e económico, o entrevistado considerou que Angola enfrenta desafios significativos, sobretudo no sector económico, que classificou como o principal entrave ao desenvolvimento.
Segundo afirmou, há falhas na gestão das finanças públicas e criticou a actuação do Ministério das Finanças e do Ministério da Coordenação Económica, apontando ausência de políticas eficazes para redução da pobreza e promoção do investimento.
Sobre a sociedade civil angolana, Garcia considerou-a “vibrante”, destacando o seu papel na consolidação da paz e reconciliação nacional. Referiu, contudo, preocupações com a politização de alguns activistas.
O jornalista destacou o trabalho da CIVICOP, particularmente na localização de restos mortais de vítimas do conflito armado, apontando a necessidade de maior colaboração por parte da UNITA em alguns casos.
Relativamente ao MPLA, Garcia considerou que a eventual separação entre a liderança partidária e a chefia do Estado — fenómeno que descreveu como “bicefalia” — pode representar uma evolução positiva, alinhada com práticas observadas em democracias como Portugal, Estados Unidos e França.
Defendeu que o Presidente da República, João Lourenço, não deve acumular funções partidárias, sublinhando a importância de uma clara separação entre Estado e partido.
Geopolítica e identidade pessoal
No plano internacional, Garcia alertou para os riscos económicos de um eventual bloqueio do Estreito de Ormuz, considerando-o uma ameaça à estabilidade global, mas também uma potencial oportunidade para países produtores de petróleo como Angola.
Por fim, ao abordar a sua identidade religiosa, afirmou: “Sou muçulmano, mas, acima de tudo, sou angolano”, defendendo que a fé deve estar associada à ética, integridade e compromisso com a verdade.

