Angola precisa sim de um pacto de nação – Zola Álvaro

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A convocação de Adalberto Costa Júnior ao Palácio Presidencial, após a apresentação pública da proposta de pacto de estabilidade, foi uma tentativa clara de reduzir ou ridicularizar o homem, uma tentativa de retirar força política ao debate, deslocando a atenção do conteúdo para o palco, mas a verdadeira questão não está no encontro, está naquilo que o encontro não consegue apagar, Angola precisa discutir seriamente a sua transição política.

Fonte: Club-k.net
O documento é público, pode não ser perfeito, pode conter lacunas, pode até ser questionável que uma força política concorrente ao poder apresente sozinha uma proposta desta dimensão, quando deviam ser organizações da sociedade civil, líderes religiosos, empresários, sindicatos, academia e outros setores estratégicos, porém, reduzir ou ridicularizar a iniciativa seria um erro político grave.
Porque existe uma pergunta que continua a pairar sobre o país, digamos: por que razão a mudança de governo é tratada quase como uma ameaça nacional? Em democracias maduras, governos mudam, partidos perdem eleições, lideranças são substituídas e o Estado continua de pé, o país não colapsa, as instituições não desaparecem e a vida continua, o problema surge quando se cria a ideia de que o poder tem donos.
Durante anos, a sociedade angolana assistiu a denúncias sucessivas de corrupção, má gestão de recursos públicos, captura de instituições e práticas que alimentaram a perceção de concentração excessiva do poder político e económico, cresceu também a sensação de que determinadas estruturas passaram a comportar-se não como administradoras temporárias do Estado, mas como proprietárias permanentes dele.
E é exatamente aí que nasce o medo, porque quem transforma o Estado numa extensão dos seus interesses inevitavelmente teme a mudança, teme auditorias, teme responsabilizações, teme perder influência, teme ver substituída a lógica segundo a qual o acesso ao poder se confunde com o acesso privilegiado ao país.
Mas o medo não pode continuar a ser o principal instrumento de gestão política de uma nação, um governo que, em períodos eleitorais, é frequentemente acusado de recorrer a práticas de intimidação, perseguição ou restrição do espaço democrático transmite uma imagem preocupante, a imagem de quem vê a disputa política não como um exercício democrático, mas como uma luta de sobrevivência, e quem encara eleições como batalha de sobrevivência demonstra dificuldade em aceitar a ideia mais elementar da democracia, que nenhum poder é eterno.
É por isso que um pacto nacional se torna importante, não para proteger indivíduos de responsabilidades legais, não para criar amnistias políticas disfarçadas, não para negociar impunidade, mas para construir garantias institucionais capazes de assegurar estabilidade, confiança e maturidade política. Chamem-lhe pacto de estabilidade, pacto de transição ou pacto de nação, o nome pouco importa, o essencial é reconhecer que Angola precisa de preparar o futuro antes que o futuro nos apanhe despreparados.
A verdadeira grandeza de uma democracia não está em manter um partido eternamente no poder, está em garantir que, quando o poder muda de mãos, a nação permanece de pé, forte, estável e maior do que qualquer partido, qualquer líder ou qualquer projeto político.
Por: ZOLA ÁLVARO

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