Ano: 2003. Sexta-feira. 15 horas. A edição semanal do semanário Agora estava fechada. A Redacção estava deserta. Restávamos apenas eu e o jornalista Aguiar dos Santos. Vínhamos de um almoço no restaurante Sameiro, na Avenida Cónego Manuel das Neves, no Cruzeiro, em Luanda. O senhor Mário, um simpático cidadão português, tratava-nos como se fôssemos estrelas de Hollywood. Mal chegávamos, colocava sempre na mesa duas rodelas de limão e jindungo. Depois trazia o menu e o whisky da ordem, com gelo e soda. Eram pequenos gestos, mas faziam-nos sentir em casa.
Toca o telefone da Redacção. Atendo. Do outro lado da linha estava Norberto dos Santos, “Kwata-Kanawa”, secretário para a Informação do Bureau Político do MPLA. Cumprimenta cordialmente e diz, com a sua voz gutural: “Estão convocados para uma conferência de imprensa esta tarde, na sede do partido”. Respondi: “Não vamos. Não é do nosso interesse. Não somos funcionários do partido para sermos convocados. Somos jornalistas. A edição já está fechada. O partido convoca os seus militantes e funcionários, não os jornalistas.”
A chamada terminou ali. Sem discussão. Sem dúvida. Aguiar dos Santos, jornalista e director da publicação, ouviu tudo com um cigarro AC aceso entre os lábios. No fim, entre uma e outra baforada, disse apenas: “Respondeste bem”. A noite terminou no Animatógrafo. Bons tempos. Outros tempos. Uma liberdade permitida pelas circunstâncias políticas do momento. Uma fresta democrática que mostrava, em bruto, a relação entre o poder político e a prática jornalística.
O jornalista Rui Vasco, profissional de créditos firmados na comunicação social angolana, defendeu recentemente a criação de Conselhos de Redacção como instrumentos de autorregulação e defesa do código deontológico da profissão. Fê-lo na abertura das Pré-Jornadas de Produção Radiofónica da Rádio Benguela.
Peço indulgência para confessar a minha ignorância: não sei quantas empresas jornalísticas em Angola têm Conselhos de Redacção. Mas sei que há jornalistas que nem sequer sabem o que são nem para que servem. E, se algum dia existiram nas Redacções angolanas, foi certamente muito antes da independência nacional.
Explico: O Conselho de Redacção é um órgão essencial numa empresa jornalística. Representa os jornalistas. Defende a independência editorial. Salvaguarda a liberdade de imprensa. Promove o cumprimento dos princípios éticos da profissão. Estimula o diálogo entre a Redacção e a direcção. Reforça a transparência das decisões editoriais. Protege o jornalismo de pressões externas.
Há um princípio antigo, simples e não escrito: Numa Redacção, os jornalistas são quem mais ordenam. A autonomia editorial nasce dessa hierarquia invertida face ao poder externo. É por isso que a Redacção é um espaço sagrado. Sem um Conselho de Redacção, a Redacção perde um dos poucos mecanismos internos de defesa da sua autonomia e fica mais exposta à lógica do poder instalado.
Quando isso acontece, o jornalismo deixa de ser um espaço de tensão crítica e passa a ser um espaço de gestão da mensagem. E é por isso que a questão não é apenas organizativa. É política, no sentido mais profundo: trata-se de saber quem tem o poder dentro da própria Redacção.
Post Scriptum — Diplomacia informal. Cento e sessenta e quatro mortos e 971 feridos é o balanço provisório do duplo sismo consecutivo que atingiu a costa norte da Venezuela na noite de quarta-feira. O país encontra-se em estado de emergência devido à destruição generalizada. Os abalos, de magnitude 7,2 e 7,5, provocaram o desabamento de mais de 100 edifícios em Caracas e no estado de La Guaira, onde equipas de resgate lutam contra o tempo e a falta de energia para localizar sobreviventes. Luanda e Caracas mantêm relações diplomáticas desde 1986. O Executivo angolano mantém-se em silêncio, pelo menos até ao momento. Por isso, em meu nome e no dos angolanos de bem, deixo expresso o meu sentimento de solidariedade e as minhas condolências ao povo venezuelano.

