Novo investimento reforça a presença chinesa nas infra-estruturas estratégicas angolanas, numa altura em que Washington aposta no Corredor do Lobito para garantir acesso a minerais críticos de África.
A China reforçou a sua posição estratégica em Angola com um investimento de 900 milhões de dólares destinado ao desenvolvimento de novas infra-estruturas portuárias na Barra do Dande, numa altura em que os Estados Unidos procuram consolidar a sua presença no país através do Corredor do Lobito. O novo projecto evidencia a crescente influência de Pequim no sector das infra-estruturas angolanas e reforça a competição entre as duas maiores potências mundiais pela influência em África.
O acordo foi assinado a 20 de Julho entre a Huatong Angola, subsidiária do grupo chinês Huatong, a Berkshire Waterhouse Infrastructure e a empresa pública Barra do Dande Development Society (SDBD). Avaliado em 900 milhões de dólares, o investimento contempla a construção e exploração de um novo porto integrado na Zona Franca de Desenvolvimento da Barra do Dande, localizada cerca de 600 quilómetros a norte do Porto do Lobito.
O projecto está dividido em dois contratos de igual valor. Um prevê a concessão da gestão do terminal portuário por um período de 25 anos e o outro contempla a construção das respectivas infra-estruturas. A primeira fase deverá estar concluída dentro de dois anos, permitindo o início das exportações a partir da zona franca, enquanto as restantes etapas deverão ficar concluídas até 2030.
Segundo o presidente do Conselho de Administração da SDBD, Roque Saraiva, o futuro porto terá capacidade para receber navios de até 80 mil toneladas, criar cerca de 21 mil postos de trabalho e gerar receitas anuais estimadas em 10 mil milhões de dólares.
“O investimento é inteiramente financiado pelo sector privado”, afirmou o responsável, sublinhando a confiança dos investidores na viabilidade económica do projecto.
Corredor do Lobito é a aposta estratégica dos EUA
O avanço chinês surge numa altura em que Washington procura afirmar Angola como peça central da sua estratégia africana. O país tornou-se um dos poucos pontos do continente onde os Estados Unidos decidiram competir directamente com a China pela influência económica e geopolítica.
Esse interesse ganhou expressão em Dezembro de 2024, quando o então Presidente norte-americano, Joe Biden, realizou uma visita oficial a Angola, a primeira de um Presidente dos Estados Unidos em exercício ao país. Durante a deslocação, Biden apresentou o Corredor do Lobito como um projecto estratégico para assegurar uma rota alternativa de exportação de minerais críticos provenientes da República Democrática do Congo e da Zâmbia.
A aposta foi mantida pela Administração de Donald Trump, que continuou a apoiar o desenvolvimento da Ferrovia Lobito-Atlântica. Até ao momento, os Estados Unidos canalizaram cerca de 553 milhões de dólares para o projecto através da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC), organismo responsável por financiar investimentos estratégicos no estrangeiro.
Para Washington, o corredor ferroviário representa uma alternativa às cadeias logísticas dominadas pela China, garantindo o acesso a minerais considerados essenciais para sectores como a indústria tecnológica, as baterias e os veículos eléctricos.
Pequim mantém domínio nas infra-estruturas
Apesar do reforço da presença norte-americana, a China continua a deter uma posição dominante no desenvolvimento das infra-estruturas angolanas.
Especialistas consideram que as empresas chinesas mantêm uma vantagem competitiva difícil de igualar pelas congéneres ocidentais, sobretudo na execução de grandes obras públicas a custos reduzidos.
Eric Olander, analista e editor do China Global South Project, considera improvável uma resposta norte-americana de dimensão semelhante ao novo investimento na Barra do Dande.
“Os Estados Unidos não dispõem de empresas de construção capazes de competir com os custos praticados pelas empresas chinesas, que têm vindo a executar grandes projectos em África ao longo de vários anos”, afirmou.
Na sua análise, a política norte-americana para África permanece centrada essencialmente na segurança e no acesso a matérias-primas estratégicas, enquanto a China continua a privilegiar investimentos estruturantes em portos, caminhos-de-ferro, estradas e zonas industriais.
Relações históricas favorecem Pequim
Embora Washington tenha procurado reaproximar-se de Luanda nos últimos anos, as relações entre os dois países foram marcadas por décadas de distanciamento.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram movimentos rebeldes que combateram o MPLA, enquanto as relações diplomáticas entre Luanda e Washington apenas foram formalmente estabelecidas em 1993, quase duas décadas após a independência de Angola.
Pelo contrário, a China aprofundou gradualmente os seus laços com Angola, sobretudo durante a presidência de José Eduardo dos Santos, financiando dezenas de grandes projectos de infra-estruturas em troca do fornecimento de petróleo.
Essa cooperação manteve-se sob a liderança do Presidente João Lourenço, que, durante a visita oficial à China em 2024, procurou alargar a cooperação aos sectores da mineração, agricultura, indústria transformadora e logística, com o objectivo de acelerar a diversificação da economia angolana.
Na mesma ocasião, os dois países elevaram oficialmente as suas relações ao nível de Parceria Estratégica Abrangente de Cooperação, um dos mais elevados patamares da diplomacia chinesa.
Disputa estratégica continua
Para Alex Vines, director do Programa para África do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR), a continuidade do apoio norte-americano ao Corredor do Lobito demonstra que o projecto ultrapassou a agenda climática defendida pela Administração Biden e passou a assumir uma dimensão claramente geoeconómica.
Segundo o analista, a prioridade actual de Washington é garantir cadeias de abastecimento de minerais críticos, reforçar a integração comercial regional e responder ao crescente peso da China em África.
Ainda assim, o novo investimento na Barra do Dande evidencia que Pequim continua a dominar os grandes projectos de infra-estruturas em Angola. Enquanto os Estados Unidos concentram os seus esforços no acesso aos recursos minerais estratégicos, a China mantém uma presença transversal nos sectores portuário, ferroviário, industrial e logístico, consolidando uma influência construída ao longo de mais de quatro décadas de cooperação com Luanda.

