UNITA E A DISPUTA PELO ESPAÇO PÚBLICO7 – RUI KANDOVE

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A indicação de William Tonet para a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) é, provavelmente, uma das apostas mais interessantes da actual direcção da UNITA. Pode-se dizer o que se quiser sobre a chamada UNITA na versão Adalberto Costa Júnior (ACJ), mas há um aspecto que merece ser reconhecido: o partido parece compreender, cada vez mais, a importância de incorporar no seu espaço de representação figuras com trajectórias profissionais, académicas, cívicas e políticas que ultrapassam o aparelho partidário.

A escolha de Tonet não é, aliás, um acto isolado. A UNITA indicou também para a CNE António José Ventura, Domingos Inácio Francisco e Augusto Samuel, completando os quatro lugares que lhe cabem naquele órgão. Ventura, em particular, tem uma trajectória ligada à defesa dos direitos humanos e à sociedade civil, tendo sido associado à Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD).

A estratégia pode ser observada igualmente na composição do grupo parlamentar. Nas eleições de 2022, a UNITA levou para a Assembleia Nacional figuras que não provinham tradicionalmente das estruturas do partido. Entre elas estavam o empresário Francisco Viana, a estilista e activista Irina Diniz Ferreira e o académico e analista político Olívio Quilumbo, este último indicado pelo Bloco Democrático no âmbito da Frente Patriótica Unida. A imprensa chegou a classificar a entrada destes nomes como uma presença inédita de elementos da sociedade civil, incluindo activistas conhecidos como “revús”, na bancada parlamentar da UNITA.

O caso de Olívio Quilumbo é particularmente interessante. A sua entrada no Parlamento ocorreu através da indicação do Bloco Democrático no contexto da FPU, mas a sua trajectória parlamentar passou posteriormente a integrar o grupo da UNITA. É um exemplo de como a recomposição da oposição angolana produziu formas de circulação política que seriam pouco prováveis dentro de uma lógica partidária tradicional.

Outro caso relevante é o de Margareth Nangacovie, indicada pela UNITA para o Tribunal Constitucional em 2025. Jurista, docente universitária e antiga jornalista da Rádio Eclésia, a sua trajectória profissional não se confunde simplesmente com a carreira de um quadro partidário tradicional. A própria UNITA apresentou a sua escolha destacando o percurso académico, jurídico e de cidadania da jurista.

É aqui que a questão ganha uma dimensão política maior.

A política angolana habituou-nos, durante décadas, a uma lógica em que os partidos procuram preencher os espaços institucionais fundamentalmente com os seus próprios quadros. A aposta em pessoas com percursos autónomos, reconhecimento profissional ou intervenção cívica exterior às estruturas partidárias pode representar uma alteração importante nessa cultura.

Não significa, evidentemente, que essas figuras deixem de representar os partidos que as indicam. A indicação partidária continua a ser o mecanismo de acesso às instituições. A questão é outra: que tipo de capital político o partido procura transportar para dentro dessas instituições?

No caso da UNITA, a resposta parece apontar para uma combinação entre capital partidário e capital social.

E há uma ironia histórica que não deve ser ignorada.

Uma organização que nasceu da luta armada e que durante décadas esteve associada a uma lógica profundamente militarizada da disputa pelo poder parece compreender, na sua actual fase institucional, que a consolidação democrática exige instrumentos diferentes: pluralidade, profissionalização, abertura e capacidade de dialogar com actores que não nasceram necessariamente dentro da estrutura partidária.

Não afirmaria, contudo, que a UNITA é a única organização política africana a adoptar este caminho. Seria uma conclusão demasiado abrangente para a evidência disponível. O que se pode afirmar com maior segurança é que, nos últimos anos, a UNITA demonstrou uma tendência para ampliar o seu recrutamento e a sua representação política para além dos quadros partidários convencionais.

E isso tem consequências.

Quando um partido coloca no Parlamento, no Tribunal Constitucional ou na CNE pessoas com trajectórias profissionais e cívicas próprias, não está simplesmente a preencher lugares. Está também a disputar legitimidade no espaço público.

É uma disputa diferente daquela que ocorre durante as campanhas eleitorais.

Nas eleições, os partidos procuram votos. No espaço institucional, procuram influência. Na sociedade civil, procuram credibilidade. E quando conseguem combinar essas três dimensões, aumentam significativamente a sua capacidade de intervenção política.

É por isso que William Tonet na CNE pode ser mais do que uma simples indicação partidária.

A sua presença acrescenta ao órgão uma figura com uma trajectória consolidada no jornalismo e no debate público, conhecida pela intervenção crítica sobre a política angolana. Ao mesmo tempo, a presença de António Ventura acrescenta uma experiência associada ao activismo cívico e aos direitos humanos. A UNITA, portanto, não está apenas a preencher quatro lugares: está a levar para a instituição diferentes formas de capital público.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Parlamento.

Francisco Viana, Irina Diniz e Olívio Quilumbo representam experiências diferentes das carreiras políticas partidárias tradicionais. A presença destes actores permitiu à UNITA aproximar-se de segmentos sociais que historicamente nem sempre se identificaram com a organização.

Esta estratégia encerra, naturalmente, riscos.

Um partido que recruta figuras da sociedade civil precisa de aceitar que essas pessoas não possuem necessariamente a mesma cultura organizacional, disciplina ou linguagem dos militantes tradicionais. A sua força está precisamente na autonomia relativa que construíram antes de entrar na política partidária.

Se essa autonomia for anulada depois da integração, a estratégia perde parte do seu sentido.

Mas, se for preservada, pode produzir algo muito mais interessante: um partido capaz de representar não apenas os seus militantes, mas também sectores da sociedade que não desejam necessariamente militar, mas querem participar na construção da vida pública.

Talvez seja precisamente esta a dimensão mais interessante da actual estratégia da UNITA.

A conquista de território político já não se faz apenas através da expansão da estrutura partidária. Faz-se também através da presença de pessoas com credibilidade própria nas instituições que sustentam a democracia.

A política moderna exige mais do que máquinas partidárias. Exige capacidade de produzir confiança.

E a confiança, ao contrário da militância, não pode ser simplesmente decretada.

É construída na sociedade.

Por isso, a aposta em figuras provenientes da sociedade civil pode representar uma mudança importante na evolução política da UNITA sob Adalberto Costa Júnior. Não porque transforme automaticamente essas pessoas em independentes, nem porque elimine a lógica de representação partidária, mas porque revela uma percepção cada vez mais clara de que ganhar influência na sociedade não significa necessariamente transformar toda a sociedade em militância partidária.

Significa também saber convidar para a política quem, até ontem, estava fora dela.

E talvez seja essa a verdadeira disputa pelo espaço público: não apenas saber quem controla as instituições, mas saber quem consegue levar para dentro delas a confiança, a competência e a legitimidade que construiu fora dos partidos.

É nesse terreno que a UNITA parece estar a experimentar uma nova forma de fazer política.

E é nesse terreno que, nos próximos anos, será possível avaliar se esta abertura representa apenas uma estratégia de recrutamento ou se constitui, de facto, uma mudança na cultura política do partido.

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