Num momento em que a actuação das forças de segurança em Angola volta a ser duramente criticada pela oposição e por sectores da sociedade civil, o ministro do Interior, Manuel Homem, reiterou, esta segunda-feira, 17 de Agosto de 2026, a natureza constitucional e a imparcialidade da Polícia Nacional de Angola (PNA).
Durante o discurso de abertura do I Curso de Gestão Estratégica Policial, o governante sublinhou que a PNA é uma «instituição republicana, apartidária e ao serviço dos cidadãos», cuja legitimidade radica estritamente na Constituição e na lei.
«A Polícia Nacional é uma instituição republicana, apartidária e ao serviço dos cidadãos. A sua natureza não se define por opiniões circunstanciais», declarou Manuel Homem.
O titular da pasta do Interior enfatizou igualmente o papel histórico da instituição, presente na vida do país desde a Independência Nacional, passando pelo processo de alcance da paz até à consolidação do desenvolvimento económico e social. Recordou que a missão basilar da Polícia Nacional consiste em proteger as pessoas, assegurar a segurança pública e manter a ordem.
Para Manuel Homem, a identidade da força policial deve continuar a ser afirmada no terreno através do «profissionalismo, disciplina, imparcialidade e proximidade com as populações». Na perspectiva do ministro, estes princípios devem começar dentro da própria instituição, através da forma como os quadros são liderados, valorizados, orientados e responsabilizados.
As declarações do ministro surgem, contudo, num contexto de forte acirramento político no país, na sequência dos graves incidentes registados no passado dia 8 de Agosto, durante as comemorações do 92.º aniversário do fundador da UNITA, Jonas Savimbi.
O maior partido da oposição acusou publicamente a Polícia Nacional de ter cercado a sua sede na província do Uíge e de ter reprimido violentamente os militantes concentrados para o comício. Segundo a UNITA, o confronto provocou pelo menos 31 feridos, dez dos quais em estado grave.
O presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, acusou directamente o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) de ter orquestrado a operação com o propósito de provocar uma reacção violenta da oposição e, posteriormente, imputar ao seu partido a responsabilidade pelos distúrbios.
É neste contexto que a afirmação de Manuel Homem sobre o carácter republicano e apartidário da Polícia Nacional ganha particular relevância.
Se a PNA é, como afirma o ministro, uma instituição republicana e apartidária, a sua actuação deve ser suficientemente transparente para que essa condição não dependa apenas da palavra de quem governa. Uma polícia republicana não deve apenas declarar a sua neutralidade: deve demonstrá-la na forma como protege uma manifestação, intervém perante uma perturbação da ordem pública, trata cidadãos de diferentes sensibilidades políticas e responde a eventuais excessos cometidos pelos seus agentes.
A imparcialidade de uma instituição pública mede-se, sobretudo, nos momentos de tensão.
É precisamente nesses momentos que a distância entre o princípio constitucional e a percepção dos cidadãos se torna mais evidente. Uma instituição pode estar formalmente definida como apartidária, mas a confiança pública depende também da forma como exerce os seus poderes e da capacidade de explicar e justificar as suas decisões.
Ao longo dos anos, sectores da sociedade civil, analistas e partidos da oposição têm questionado a independência de instituições do Estado angolano, incluindo a Polícia Nacional, as Forças Armadas e os órgãos de justiça, acusando-as de actuarem em sintonia com os interesses do MPLA. O poder, por seu lado, tem rejeitado, em diferentes ocasiões, a ideia de que essas instituições sejam meras extensões partidárias.

