Há uma coisa que a Huíla não pode perder: a memória.
Porque quando se fala da governação da província, não basta olhar para os discursos, para as cerimónias, para as visitas ou para as fotografias ao lado de placas de inauguração.
É preciso perguntar: o que mudou efectivamente na vida do cidadão?
É justamente aí que começa o olhar entre a Huíla de Luís Nunes e a Huíla de Nuno Mahapi, onde muito podem dizer que Luís possui ou é parte de uma das melhores empresas construtora do país, mas não, o point é outro.
Luís Nunes chegou ao Governo Provincial num momento em que a província precisava de uma liderança com capacidade de transformar projectos em obras visíveis.
E, goste-se ou não do estilo de Luís Nunes, é difícil negar que a sua passagem deixou uma marca muito particular: a ideia de uma Huíla transformada num verdadeiro canteiro de obras.
Uma reportagem do Novo Jornal, publicada depois da saída de Luís Nunes, chegou precisamente a registar que havia na sociedade huilana a percepção de que a intensidade das obras tinha diminuído após a sua transferência para Benguela, embora a própria reportagem ressalvasse que outros actores falavam numa mudança de estratégia.
Esta ressalva é importante.
Não se trata de transformar Luís Nunes num governador perfeito, como ninguém é, claro.
Não foi.
Durante a sua gestão também existiram problemas sérios na execução de projectos. Em 2021, por exemplo, o próprio Governo Provincial criou uma comissão de inquérito para analisar atrasos e problemas de qualidade em obras do PIIM em Caconda e Caluquembe.
Na altura, Nuno Mahapi, então vice-governador para o sector técnico e infra-estruturas, foi indicado para liderar o levantamento.
Ou seja: Nuno Mahapi não chegou à governação como um desconhecido da máquina administrativa. Ele conhecia a casa por dentro.
E talvez seja justamente por isso que a actual situação provoque ainda mais exigências. Nuno Mahapi não começou ontem.
Antes de ser governador, ocupou durante anos funções técnicas no Governo Provincial.
A própria biografia oficial do Governo da Huíla regista a sua passagem como vice-governador para o sector técnico e infra-estruturas e a sua experiência em urbanismo, águas, geologia, minas e ambiente.
Portanto, quando Nuno Mahapi assumiu o Governo Provincial, havia uma expectativa legítima:
“Agora ele conhece os problemas. Agora ele sabe onde estão os bloqueios. Agora ele sabe o que precisa ser feito.”
Mas é exactamente aqui que a exigência deve dar início, porque passaram-se anos.
E as perguntas continua a ser:
Onde estão as grandes obras estruturantes da era Nuno Mahapi?
Onde está a transformação profunda do Lubango? Onde está a solução definitiva para a mobilidade urbana?
Onde está a revolução no abastecimento de água? Onde está a resposta proporcional ao crescimento populacional? Onde está a grande estratégia para transformar a produção agrícola da Huíla em verdadeira indústria agro-alimentar?
Onde está a solução para as estradas municipais e intermunicipais? Onde está a grande viragem na habitação? Onde está a resposta consistente para os bairros periféricos?
E, sobretudo, onde está aquela capacidade de execução que permita ao cidadão olhar para a sua cidade e dizer:
“Sim, alguma coisa está realmente a mudar.”
Este é talvez o maior problema da governação de Nuno Mahapi: a distância entre aquilo que se anuncia e aquilo que chega ao cidadão.
É verdade que o governador fala de investimento.
Fala de agricultura, fala de turismo, fala dos caminhos-de-ferro, fala de água, fala de energia, fala de mobilidade, fala da necessidade de atrair investidores, fala do combate à seca, fala do garimpo e fala das estradas.
O próprio Governo Provincial apresenta a Huíla como uma província com enormes potencialidades agrícolas, mineiras, turísticas e logísticas.
Mas a população não vive de potencialidades, a população vive de resultados. E este é o ponto central da crítica.
Uma governação pode produzir centenas de discursos tecnicamente perfeitos e, ainda assim, falhar politicamente se o cidadão continuar sem água, sem estrada, sem transporte, sem escola adequada, sem emprego e sem perspectivas.
Em 2026, o próprio Governo Provincial reconheceu que várias metas não foram alcançadas e que continuam a existir dificuldades nas áreas de saúde, educação e segurança.
E os números da educação são particularmente reveladores. A província dispõe de 1.061 escolas e 10.601 salas de aula, mas 1.807 são improvisadas e 3.658 são provisórias.
Isto não é um pequeno detalhe administrativo, é o retrato de uma província que ainda não conseguiu acompanhar as necessidades da sua população.
Outro problema é que a Huíla não é apenas o Lubango.
Existe Caconda, existe Caluquembe, existe Chibia, existe Chicomba, existe Chipindo, existe Cuvango, existe Gambos, existe Jamba, existe Matala, existe Quipungo, existe Quilengues, e, existem comunidades rurais que continuam a lutar diariamente contra a falta de água, energia, estradas, escolas e serviços básicos.
Quando Nuno Mahapi visita o Cuvango e constata que continuam a faltar investimentos em educação, saúde, energia, água, agricultura e vias de acesso, isso demonstra que os problemas fundamentais permanecem.
E aqui está a contradição dolorosa: Uma província com terras agrícolas, recursos minerais, potencial turístico, ferrovia e localização estratégica continua a lutar com necessidades básicas.
Isto é uma falha de aproveitamento do potencial.
É preciso reconhecer uma coisa em defesa de Nuno Mahapi: ele conhece a Huíla.
É huilano, Eengenheiro geólogo, conhece o território, conhece a administração pública, conhece as infra-estruturas e conhece os problemas da província há muitos anos.
Por isso, já não estamos diante de um governador que possa alegar falta de conhecimento da realidade.
Nuno Mahapi sabe onde estão os problemas.
O problema é saber por que razão tantos continuam por resolver, E é por isso que a crítica de que é “bastante falatório e pouco prático” ganha força no debate público: não porque falar seja mau, mas porque, depois de tantos anos de governação, a população começa a exigir menos discursos e mais resultados.
Veja-se o caso dos transportes.
Em 2026, foi divulgado que a Huíla dispõe de 84 autocarros, mas apenas 65 estavam operacionais. O responsável provincial apontou que seriam necessários pelo menos 200 para responder à procura. O projecto de mobilidade urbana prevê ainda requalificação de vias, paragens e bases operacionais.
Isto significa que a mobilidade urbana continua a ser um problema estrutural.
E o Lubango cresce, a população cresce, as periferias expandem-se. O trânsito aumenta, os transportes públicos não acompanham, e, enquanto isso, continuam os estudos, reuniões, diagnósticos e projectos.
É aqui que a população começa a perder a paciência.
Porque um estudo não transporta um estudante para a escola. Uma reunião não leva uma grávida ao hospital. Uma promessa não leva um trabalhador ao emprego.
É preciso executar.
Outro exemplo é o Caminho-de-Ferro de Moçâmedes. Nuno Mahapi reconheceu correctamente a importância estratégica da ferrovia para o desenvolvimento da Huíla, sobretudo para o escoamento de minerais e produção agropecuária.
Aqui está uma das maiores oportunidades da província.
A Huíla poderia tornar-se uma plataforma logística do Sul de Angola.
Poderia produzir, transformar, armazenar, Transportar, exportar, criar emprego, atrair indústria, ligar a produção agrícola à ferrovia e aos mercados.
Mas para isso é necessário muito mais do que reconhecer a importância do CFM.
É preciso construir uma estratégia económica provincial integrada.
O GRANDE FRACASSO SERIA DEIXAR A HUÍLA CONTINUAR A EXPORTAR MATÉRIA-PRIMA E IMPORTAR VALOR
A Huíla tem uma oportunidade extraordinária.
Agricultura, pecuária, granito, ouro, turismo, ferrovia, localização estratégica, universidades, huventude, mercado consumidor.
A província pode produzir muito mais riqueza do que produz actualmente, mas existe uma pergunta que deveria estar permanentemente sobre a mesa de Nuno Mahapi:
Por que razão uma província com este potencial continua sem uma transformação industrial proporcional à sua capacidade produtiva?
Não basta produzir milho, é preciso transformar milho, não basta criar gado, é preciso desenvolver a cadeia da carne, do leite, dos curtumes e dos derivados.
Não basta extrair granito, é preciso criar maior valor acrescentado. Não basta ter paisagens magníficas, é preciso transformar turismo em emprego, impostos e rendimento para as comunidades.
É aí que uma governação deixa de ser meramente administrativa e passa a ser verdadeiramente estratégica.
E OS GANHOS?
Seria intelectualmente desonesto dizer que nada aconteceu até aqui na gestão de Nuno Mahapi.
Há continuidade de projectos, há intervenções sectoriais, há programas sociais, há esforços na vacinação, há iniciativas relacionadas com mobilidade, ferrovia, agricultura, turismo e infra-estruturas.
A própria documentação oficial mostra uma administração preocupada com segurança, saúde, educação, mobilidade, água e desenvolvimento económico.
Mas a questão é outra:
Serão esses ganhos suficientes para uma província do tamanho e da importância da Huíla?
É aqui que a resposta deve ser dura:
Não, não, não!
Porque a fasquia para a Huíla não pode ser apenas “fazer alguma coisa”.
A fasquia deve ser transformar estruturalmente a província.
O QUE NUNO MAHAPI TEM PELA FRENTE
Se Nuno Mahapi quiser mudar a percepção negativa que cresce à sua volta, terá de abandonar definitivamente a lógica da governação baseada apenas em anúncios e constatações.
A Huíla precisa de cinco grandes revoluções.
PRIMEIRA: Água.
Água potável para as comunidades urbanas e rurais, aproveitamento dos recursos hídricos e combate sério aos efeitos da seca e desertificação.
SEGUNDA: Mobilidade.
Resolver de forma estrutural o transporte público do Lubango, melhorar as estradas e criar uma rede funcional entre os municípios.
TERCEIRA: produção e indústria.
Transformar a Huíla num verdadeiro centro agro-industrial do Sul de Angola.
QUARTA: Emprego jovem.
Não basta inaugurar salas de formação. É preciso criar um ecossistema empresarial que permita aos jovens trabalhar, empreender e permanecer na província.
QUINTA: Governação por resultados.
Cada grande promessa deveria ter prazo, orçamento, responsável e indicador público de execução.
É isso que falta.
A HUÍLA MERECE MAIS
E precisa, acima de tudo, de um governador que compreenda que o tempo dos discursos já não chega para convencer uma população que todos os dias sente os problemas na própria pele.
Por isso, a crítica a Nuno Mahapi deve ser encarada como uma provocação política, mas também como uma pergunta legítima:
Depois de tantos anos a conhecer a Huíla por dentro, quanto tempo mais a província terá de esperar para ver o conhecimento transformado em resultados?
Porque a Huíla não precisa de mais um homem que lhe explique os seus problemas, a Huíla precisa de alguém que os resolva.
CALAMIDADE VERBAL

