
Mais de 300 residências terão sido demolidas na Zona 0 do Sequele, na última semana de setembro, deixando dezenas de famílias sem abrigo e provocando uma onda de revolta entre moradores. Uma delegação do partido BASTA esteve no local para constatar as condições em que se encontram as famílias e manifestar solidariedade aos moradores. No meio da revolta, até alegados militantes do MPLA dizem sentir-se abandonados pelo próprio partido.
Francisco Mapanzu
“Onde vamos viver agora?” Esta é a pergunta que domina a Zona 0 do Sequele, onde mais de 300 residências terão sido demolidas na última semana de setembro, deixando famílias inteiras sem abrigo. Moradores acusam responsáveis da fiscalização da Administração Municipal de terem conduzido a operação de forma arbitrária e afirmam que não foram previamente notificados.
As máquinas avançaram sobre as residências e destruíram habitações onde, segundo os moradores, algumas famílias viviam há mais de dez anos. A operação provocou momentos de tensão, com idosos, mulheres e crianças a assistirem, em lágrimas, à destruição das casas que consideravam o seu lar.
Os afectados dizem não saber para onde levar as suas famílias e questionam a legalidade da operação, sobretudo pela alegada ausência de uma notificação prévia e de garantias de realojamento.
FAMÍLIAS DIZEM TER FICADO AO RELENTO
Segundo relatos recolhidos junto dos moradores, várias famílias perderam praticamente todos os seus bens durante as demolições. Alguns residentes afirmam que receberam a notícia apenas quando as máquinas já se encontravam no local.
“Estamos sem saber para onde ir com os nossos filhos”, relatam moradores, que pedem uma intervenção urgente das autoridades e uma solução para as famílias desalojadas.
A situação tornou-se particularmente dramática com a presença de idosos e crianças entre os afectados. Moradores dizem que algumas das residências destruídas eram ocupadas há mais de uma década.
Até ao momento, as denúncias dos moradores sobre a inexistência de aviso prévio e sobre a legalidade da operação carecem de esclarecimento oficial das entidades responsáveis.
BASTA ACOMPANHA SITUAÇÃO E ANUNCIA APOIO JURÍDICO
O partido BASTA — Bloco para a Alternância Social de Todos Angolanos — liderado por Jovete Domingos, afirma estar a acompanhar de perto a situação dos moradores afectados pelas demolições na Zona 0 do Sequele.
Uma delegação da formação política esteve no local para constatar as condições em que se encontram as famílias e manifestar solidariedade aos moradores.
Joveth Domingos terá criado uma equipa de trabalho, incluindo advogados, para prestar apoio às famílias afectadas e acompanhar o caso junto das instituições competentes.
A presença do BASTA no Sequele ganha particular relevância por a sede oficial da formação política estar registada na Centralidade do Sequele. O partido realizou as suas primeiras apresentações públicas oficiais no final de setembro, num período em que intensificou a sua actividade política tendo em vista as eleições de 2027.
MILITANTES DO MPLA TAMBÉM ENTRE OS AFECTADOS
Entre os moradores que dizem ter sido atingidos pelas demolições estarão, segundo relatos locais, militantes e simpatizantes do MPLA.
Alguns afirmam sentir-se abandonados pelas estruturas do próprio partido e dizem que a situação poderá ter consequências políticas nas eleições de 2027.
Moradores que se identificam como militantes do MPLA acusam dirigentes locais de não terem protegido as famílias afectadas e contestam a forma como o processo de demolição foi conduzido.
Há ainda acusações contra responsáveis partidários e administrativos locais relacionadas com a alegada disputa de terrenos pertencentes a camponesas da Associação 4 de Março. Essas acusações, contudo, deverão ser esclarecidas e respondidas pelas pessoas e instituições mencionadas.
CAMPONESAS PEDEM INTERVENÇÃO DA DIRECÇÃO DO MPLA
As camponesas da Associação 4 de Março, que, segundo relatos locais, incluem militantes com funções nas estruturas do MPLA, OMA e JMPLA nos CAP 94, 159 e 177, apelam à direcção do partido para intervir na situação.
As mulheres afirmam que pretendem permanecer nas terras que consideram suas e pedem que as estruturas superiores do partido impeçam aquilo que classificam como actos de intimidação e perturbação.
Uma das frases que mais tem circulado entre os moradores sintetiza a revolta existente na comunidade:
“Se esta situação continuar, nós, as militantes do MPLA, não vamos votar no nosso partido, mas sim numa outra força política.”
A declaração, atribuída a militantes locais, traduz a dimensão da insatisfação entre alguns moradores, mas não permite concluir que exista uma decisão colectiva de milhares de eleitores.
A principal questão que permanece sem resposta é saber quem autorizou as demolições, com que fundamento legal, se houve notificação prévia aos moradores e que medidas estão previstas para as famílias que ficaram sem habitação.
Até que as autoridades apresentem a sua versão, as acusações feitas pelos moradores e pelas forças políticas envolvidas devem ser tratadas como denúncias ainda sujeitas a confirmação.
O drama vivido na Zona 0 do Sequele coloca, assim, uma pergunta urgente sobre a mesa: depois da demolição das casas, para onde vão as famílias?
