Adalberto Costa Júnior critica instituições e rejeita especulações sobre morte de Eliseu Monteiro

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O presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, concedeu uma entrevista ao jornalista Victor Hugo Mendes, na qual abordou questões sensíveis relacionadas com a morte do deputado Eliseu Monteiro, o estado do sistema de saúde em Angola e a situação dos direitos políticos no país.

Jornalista Victor Hugo Mendes: Confirmam-se aquelas vozes que dizem que terá sido envenenado e que, no Brasil, terá depois sido evacuado, tendo as autoridades médicas brasileiras indicado que não valia a pena prosseguir, por se tratar de um veneno de natureza irreversível? Confirma-se isso? Apenas para evitar especulações.

Deixe-me aproveitar a ocasião para saudar o presidente Adalberto Costa Júnior. Sr. Presidente, muito boa tarde.

Presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior: Muito boa tarde, Digníssimo. Espero que esteja bem.

Victor Hugo Mendes: Boa tarde, Sr. Presidente. Estou bem, sim, senhor, e agradeço a gentileza por esta oportunidade de conversarmos. Sei que se encontra fora do país, em missão de serviço, mas aceitou falar connosco por telefone.

Adalberto Costa Júnior: Se não fosse o nefasto acontecimento que nos tocou a todos desde o final da semana passada, diria que estaria bem. A perda de um homem com representatividade, com intervenção junto da juventude, deputado como Eliseu Monteiro, toca-nos profundamente. Tirando este elemento muito negativo, diria que estamos a trabalhar, focados no país, sempre com a expectativa de sermos úteis e contribuirmos para uma abordagem mais positiva para Angola, que tanto merece e tanto necessita. Infelizmente, não vemos surgir soluções económicas e sociais como gostaríamos, mas continuamos a trabalhar.

Victor Hugo Mendes: Sr. Presidente, de facto a sociedade ficou bastante surpreendida com a morte do deputado Monteiro. Tenho aqui o comunicado do grupo parlamentar da UNITA que refere que o falecimento ocorreu no passado dia 29 de Março, no Hospital Geral do Huambo, por doença. No entanto, nos últimos tempos, várias figuras de destaque da UNITA têm tido o mesmo desfecho. A UNITA está preocupada com este padrão ou considera que se trata da lei da vida?

Adalberto Costa Júnior: Não podemos olhar para estas perdas apenas com o conformismo da lei da vida. Sabemos bem que o nosso sistema de saúde não funciona adequadamente. O cidadão, incluindo os políticos, não se sente seguro em determinadas circunstâncias, devido ao elevado grau de partidarização existente em Angola. Qualquer observador atento constata que há apreensão, inclusive dentro do próprio regime, quando se trata de recorrer a determinadas unidades hospitalares.

Há uma necessidade clara de ultrapassar este clima de desconfiança e o proteccionismo exagerado decorrente da partidarização. Temos assistido a situações em que muitos cidadãos, incluindo membros da UNITA, evitam recorrer ao sistema normal de saúde e, quando o fazem, muitas vezes já em estado crítico, não há o acompanhamento preventivo que deveria existir. Trata-se de uma situação grave.

Victor Hugo Mendes: Sr. Presidente, tenho aqui uma lista de figuras como Raul Danda, General Chiringutila, General Samy… Conhecemos esses casos. E agora o deputado Eliseu Monteiro…

Adalberto Costa Júnior: O caso do General Camorteiro não deve ser incluído nessa lista. Trata-se de uma situação que deve ser esclarecida pelas Forças Armadas Angolanas, uma vez que ele era vice-chefe do Estado-Maior. Conheço bem as circunstâncias da sua morte, que ocorreram numa altura em que estava prestes a ser confirmado como chefe do Estado-Maior. Quem acompanha Angola sabe que existem casos semelhantes no passado.

Victor Hugo Mendes: Particularizando então o caso do deputado Eliseu Monteiro, confirma-se que terá sido envenenado e que, no Brasil, foi considerado um caso irreversível?

Adalberto Costa Júnior: Devemos ser responsáveis ao abordar estas questões. O deputado Eliseu teve um agravamento do seu estado de saúde. O partido, o grupo parlamentar e a Assembleia intervieram, e foi ele próprio que decidiu deslocar-se ao Brasil.

No Brasil, teve acesso ao sistema de saúde, e nada do que referiu foi confirmado. Essa informação não consta de qualquer relatório médico, nem das conversas que mantivemos com ele durante a sua estadia. Hoje circulam informações na internet, mas não têm confirmação oficial.

O que sabemos é que havia uma condição clínica identificada, que exigia tratamento específico, mas já com níveis imunológicos muito baixos. Posteriormente, regressou a Angola e esteve numa unidade hospitalar onde se confirmou uma degradação acentuada do seu estado de saúde.

Estava a ser preparada uma nova evacuação, mas houve recomendação médica para que não fosse transferido, pois poderia não resistir. Acabou por ser transferido para outra unidade no Huambo, onde infelizmente veio a falecer.

Não há confirmação de envenenamento. Contudo, há casos anteriores que suscitam preocupação. Tivemos situações em que substâncias suspeitas foram identificadas e até hoje não houve esclarecimentos por parte das autoridades. Isso gera apreensão e falta de confiança nas instituições.

Victor Hugo Mendes: Sr. Presidente, para terminarmos, gostaria que deixasse uma mensagem aos activistas angolanos detidos em várias cadeias, muitos em prisão preventiva prolongada.

Adalberto Costa Júnior: Agradeço a oportunidade. Em Angola existem presos políticos, o que é inaceitável. Décadas após a independência, continuamos a assistir a situações que penalizam sobretudo a juventude.

Muitos destes activistas são jovens que apenas exercem os seus direitos constitucionais. No entanto, enfrentam repressão, detenções arbitrárias e maus-tratos. Há relatos de cidadãos detidos em manifestações e abandonados em locais remotos, sem qualquer responsabilização dos autores desses actos.

Isto é condenável. Precisamos de instituições independentes, de um sistema judicial que cumpra a Constituição e rejeite interferências partidárias. Há uma tendência preocupante de criminalização dos direitos fundamentais, como a liberdade de expressão e o direito à manifestação.

Defender direitos não pode ser confundido com criminalidade ou terrorismo. É necessário inverter este quadro. A UNITA defende um pacto de estabilidade democrática, que pode assumir várias formas, mas que tenha como objectivo garantir direitos, liberdades e respeito mútuo.

Victor Hugo Mendes: Muito obrigado, Sr. Presidente.

Adalberto Costa Júnior: Agradeço a oportunidade. Infelizmente, entrevistas como esta não são comuns nos órgãos públicos, devido à censura existente.

Tenho plena confiança nos jornalistas angolanos. O problema não está nos profissionais, mas no sistema que limita a sua actuação.

Desejo a todos uma boa tarde e reitero a necessidade de restaurar a confiança no sistema de saúde e nas instituições, garantindo transparência e igualdade no acesso a direitos fundamentais.

Victor Hugo Mendes: Muito boa tarde, Sr. Presidente.

Foi este o directo exclusivo com o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior.
ANGOLA24h

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