João Lourenço e a política das prioridades trocadas – Carlos Alberto Jornalista

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O país vive momentos sensíveis, marcados por episódios chocantes de bacanalização institucional, perante os quais não se ouve uma única palavra de repúdio ou indignação vinda das instâncias do Estado, como se as autoridades tivessem entrado numa espécie de hibernação política em matéria de ética e moral pública. Dá a impressão de que atravessamos um período de transumância política, em que até os deputados da oposição, mormente os da UNITA, optam pelo silêncio diante de práticas moralmente condenáveis envolvendo um deputado da Assembleia Nacional, esquecendo-se de que a condição de deputado não é meramente partidária: trata-se de uma missão de Estado. A Assembleia Nacional é um órgão de soberania e, como tal, deveria ser a primeira trincheira moral da República.

Mas, para cúmulo da nossa pouca vergonha colectiva, a prioridade do Chefe de Estado parece ser a exoneração do inspector-geral da Administração do Estado e a nomeação da nova titular da IGAE. E a questão aqui nem sequer é o mérito da exoneração. Eu próprio já escrevi, em momento oportuno, que o inspector exonerado era praticamente um peso morto na instituição. Aliás, a sua nomeação, se fôssemos um país normal, à luz das responsabilidades da IGAE e do perfil de João Manuel Francisco “João Pinto”, dificilmente deveria ter acontecido. Não era preciso grande exercício de análise para perceber que a escolha tinha sido, no mínimo, desajustada ao cargo.

A Inspecção-Geral da Administração do Estado (IGAE) teve, provavelmente, o seu melhor desempenho no tempo de Sebastião Gunza. Havia maior percepção de utilidade pública e a sensação de que o órgão existia para algo mais do que produzir relatórios decorativos. Ainda assim, também apresentou critérios pouco claros em termos de responsabilização institucional. Muitas vezes, limitava-se a publicitar práticas de corrupção envolvendo “peixes miúdos”, sem que se tivesse visto, com a mesma regularidade, a responsabilização de administradores ou governadores, não obstante denúncias nesse sentido. Mas é verdade que Sebastião Gunza procurou, em alguma medida, contribuir para a moralização das instituições do Estado. E fez a sua parte. Quanto à sucessora de João Pinto, prefiro nem entrar no mérito. Esse assunto talvez mereça outro texto.

A questão central nesta reflexão é a prioridade do Presidente da República. Era assim tão urgente mudar o “rosto” da IGAE, quando o país atravessa um dos períodos mais delicados da sua vida institucional e social? Com tantos desafios acumulados, tanta erosão da confiança pública e um descrédito cada vez mais visível das instituições, era realmente esta a prioridade presidencial? A sensação que fica é a de uma tentativa de transmitir ao país a ideia de que ainda existe uma cruzada moral em curso dentro do aparelho do Estado. Só que o efeito produzido acabou por ser exactamente o contrário.

Sempre que um Presidente parece mais preocupado em gerir símbolos administrativos do que em restaurar a autoridade moral das instituições, instala-se inevitavelmente a percepção de desnorte. Um país pode sobreviver a crises económicas, tensões políticas e dificuldades sociais; o que raramente sobrevive é à sensação colectiva de que o seu “líder” deixou de distinguir o essencial do acessório. Neste momento, Angola transmite precisamente essa imagem: a de um Estado que continua a trocar rostos, discursos e cargos, sem conseguir convencer os cidadãos de que mudou verdadeiramente as prioridades.

É por isso que, por vezes, chego à conclusão de que talvez seja o meu próprio juízo que esteja a falhar, porque não consigo acreditar que eu seja dos poucos a notar tamanha incongruência, tamanha inversão de prioridades e tamanho desprezo pelos valores que deveriam nortear a sã convivência social e a própria organização do Estado. Estou confuso. E talvez a maior tragédia seja precisamente essa: num país normal, o absurdo ainda provoca reacção; aqui, começa perigosamente a ser tratado como rotina.

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