Angola enfrenta bloqueios estruturais que travam reformas – investigador

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O vice-presidente e diretor-geral de investigação do Centro de Estudos de Desenvolvimento Económico e Social de Angola (CEDESA) considerou ontem que o país está bloqueado por fatores persistentes que dificilmente conseguirão ser ultrapassados.

“A transformação estrutural continua bloqueada por fatores persistentes: baixa produtividade agrícola, insuficiência logística, complexidade regulatória, custos elevados de financiamento e um ambiente de negócios que, apesar de reformas, permanece marcado por opacidade e imprevisibilidade”, escreve o jurista na mais recente “Radiografia e Prospetiva da Economia Angolana”.

A economia deste país lusófono africano é marcada “por um dualismo profundo”, em que, de um lado, tem um setor petrolífero “em declínio estrutural, mas ainda dominante”, e, de outro lado, regista apenas “avanços pontuais” no setor não petrolífero, “que não consegue assumir o papel de motor de crescimento, sobretudo, por falta de um setor privado capitalizado e não dependente de rendas do Estado”.

Esta tensão estrutural, aponta, caracteriza o ano de 2026, em que “a proximidade das eleições de 2027 amplifica incertezas, retrai investimento e condiciona decisões de política económica”.

Na análise, o jurista passa em revista as consequências de Angola estar na lista cinzenta do GAFI, o Grupo de Ação Financeira Internacional que define os padrões das operações financeiras no âmbito do combate ao branqueamento de capitais, entre outros, e salienta que os números do Fundo Monetário Internacional (FMI), que estimam um crescimento de 2,3% para Angola este ano, abaixo dos 4,3% previstos para a África subsaariana, comprovam que os desafios são significativos.

“A fragilidade da economia angolana não é apenas económica, é epistemológica”, afirma, explicando: “O problema não reside apenas nos indicadores, nos mercados ou nas limitações materiais da economia, mas sobretudo na forma como o país produz, organiza e interpreta o próprio conhecimento sobre si mesmo e nas suas instituições”, o que revela um problema profundo que é “a incapacidade estrutural de gerar conhecimento sólido, crítico e operacional, capaz de orientar políticas públicas consistentes e de antecipar riscos”.

As eleições do próximo ano, que não terão o atual Presidente, João Lourenço, como candidato, serão decisivas, afirma Rui Verde, sublinhando que “apenas um processo transparente e consensual poderá restaurar a confiança dos mercados e permitir que o país transforme a sua riqueza natural em desenvolvimento sustentável”.

E alerta: “Sem esta mudança epistemológica, Angola continuará presa num ciclo de crescimento insuficiente, vulnerabilidade estrutural e instabilidade politica”.

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