O economista angolano Tylenga Mutindi considera que a realidade económica de Angola continua a ser melhor compreendida através da observação do quotidiano das cidades do que apenas pelos indicadores estatísticos, defendendo que o país vive uma fase de transição marcada pela coexistência entre crescimento económico, informalidade e desafios estruturais.
Numa análise intitulada “Angola: Economia entre a luz das cidades e o silêncio das estatísticas”, o especialista argumenta que os relatórios económicos frequentemente destacam indicadores de crescimento, estabilidade e reformas, mas que a dinâmica observada nas ruas revela uma realidade mais complexa e profundamente humana.
Segundo Tylenga Mutindi, a cidade de Luanda constitui um retrato fiel da economia nacional, onde milhares de cidadãos garantem diariamente a sua subsistência através do comércio informal, do empreendedorismo de pequena escala e de actividades económicas que escapam aos registos oficiais.
“O movimento das ruas mostra uma economia viva, construída pela criatividade e pela capacidade de adaptação das pessoas”, sustenta o economista, destacando o papel dos vendedores ambulantes, dos operadores de serviços digitais e dos transportadores informais na manutenção da actividade económica urbana.
Apesar dessa dinâmica, o analista observa que o petróleo continua a desempenhar um papel determinante na economia nacional. Embora não seja visível no quotidiano das cidades, afirma que o sector petrolífero permanece como o principal factor de influência sobre as finanças públicas, o sistema financeiro e as perspectivas de crescimento do país.
Para Mutindi, a forte dependência das receitas petrolíferas representa simultaneamente uma fonte de riqueza e um factor de vulnerabilidade económica. Segundo explica, as oscilações dos preços internacionais do crude continuam a produzir impactos significativos na confiança dos agentes económicos e na capacidade do Estado para financiar programas e investimentos.
A análise assinala ainda uma diferença entre os indicadores macroeconómicos e a realidade enfrentada por muitas famílias angolanas. Embora alguns dados apontem para sinais de recuperação económica, o economista considera que a inflação, o desemprego e a redução do poder de compra continuam a afectar uma parte significativa da população.
“O progresso económico não se mede apenas por números, mas também pela forma como se reflecte na vida das pessoas”, refere.
Outro ponto destacado é o papel da juventude no actual contexto económico. O economista entende que os jovens já constituem um dos principais motores da actividade económica nacional, através da criação de pequenos negócios, da utilização das plataformas digitais e da procura constante de novas formas de geração de rendimento.
Contudo, alerta que o potencial económico da juventude permanece insuficientemente aproveitado devido à escassez de oportunidades formais de emprego, financiamento e formação especializada.
Na sua análise, Tylenga Mutindi descreve Luanda como uma cidade que simboliza simultaneamente as oportunidades e os desafios do país. Segundo observa, a capital apresenta sinais visíveis de modernização e expansão urbana, mas continua a conviver com desigualdades económicas, fragilidades estruturais e uma forte presença do sector informal.
O especialista chama igualmente a atenção para aquilo que designa como “economia invisível”, composta por redes familiares de apoio, pequenos serviços comunitários, comércio não registado e diversas formas de microempreendedorismo que sustentam milhares de agregados familiares.
Na sua perspectiva, essa economia informal não deve ser encarada como um fenómeno marginal, mas como uma componente estrutural da realidade económica angolana.
O economista reconhece a existência de avanços em áreas como a estabilidade macroeconómica e o investimento em infra-estruturas, mas considera que persistem desafios relacionados com a inclusão social, a diversificação da economia e a transformação do crescimento económico em melhorias concretas das condições de vida da população.
Para Tylenga Mutindi, Angola encontra-se actualmente num momento de transição, caracterizado pela coexistência entre potencial económico e limitações estruturais.
“Angola não é uma economia parada. É uma economia em trânsito”, conclui o analista, defendendo que o principal desafio do país passa por transformar os indicadores de crescimento em benefícios tangíveis para os cidadãos e em oportunidades sustentáveis de desenvolvimento.

