Forte comoção marca entrega de restos mortais de vítimas dos conflitos políticos

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A cerimónia de entrega de nove restos mortais de vítimas dos conflitos políticos em Angola decorreu esta sexta-feira, em Luanda, sob forte emoção e reiterados apelos à reconciliação nacional.

Fonte: Angop

O acto teve lugar nas imediações das instalações do futuro Hospital dos Queimados, sob orientação do ministro da Justiça e coordenador do CIVICOP e na presença de familiares.
Os nove corpos fazem parte de um total de 623 exumados da vala comum do Cemitério do Mulemba, mais de quatro décadas depois do desaparecimento das vítimas, num processo que visa devolver dignidade às famílias e proporcionar um encerramento simbólico e emocional.
Entre os familiares presentes, Jorge Gonga Zombo, identificado como filho de uma das vítimas, descreveu o momento como particularmente doloroso para a família.
“É um momento de grande significado. Com esta entrega, teremos finalmente um lugar onde podemos dizer que aqui jazem os restos do nosso pai”, afirmou.
Referiu igualmente que a cerimónia acontece “num espírito de gratidão e perdão”, depois de muitos anos de espera pelo desfecho do processo.
Sem memórias pessoais do pai, devido à pouca idade que tinha na altura da morte, explicou que a ligação afectiva foi construída através de relatos familiares.
“Eu não tenho memórias. Era um recém-nascido. Tudo o que sei vem das histórias que me contaram”, disse.
Jorge Gonga Zombo reconheceu ainda que o processo de identificação foi emocionalmente difícil para a família.
“Foram dias difíceis. Houve resistência da minha parte, mas acabámos por confiar na ciência e hoje estamos aqui”, acrescentou.
Outro momento marcante da cerimónia ocorreu com o depoimento do músico Gabi Moy, irmão do artista David Zé, também vítima do mesmo período histórico.
Segundo o artista, a entrega dos restos mortais representa uma etapa importante para a sociedade angolana.
“É um momento de pesar, mas também o início de uma nova fase de harmonia entre os angolanos”, declarou.
Gabi Moy agradeceu o empenho das entidades envolvidas no processo e considerou que a devolução dos restos mortais permitirá às famílias realizar funerais condignos e encontrar paz interior.
Após décadas de espera, explicou que a esperança começou a renascer quando as famílias foram chamadas para os procedimentos de recolha de dados e identificação genética.
“Esperança é a última a morrer. Foram muitos anos difíceis, mas hoje sentimos que estamos mais próximos de fechar este ciclo”, afirmou.
A CIVICOP explicou ainda que alguns familiares não compareceram à cerimónia por razões ligadas ao reagrupamento familiar e ao cumprimento de princípios culturais associados às cerimónias fúnebres.
Os funerais de parte das vítimas terão lugar sábado, no Cemitério do Benfica, enquanto outras famílias optaram por realizar as exéquias em datas posteriores.
A comissão assegurou que o processo de identificação e entrega dos restos mortais prossegue nos próximos dias.
Em homenagem das vítimas do conflito armados registados no país, Angola verifica, esta sexta-feira, um período de luto nacional.

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