GENERAIS RECEBEM 13 VEZES MAIS DO QUE SOLDADOS: QUEM ESTÁ A SERVIR A PÁTRIA E QUEM ESTÁ A SER MELHOR REMUNERADO?
Enquanto um general das Forças Armadas Angolanas (FAA) recebe cerca de 1,05 milhão de kwanzas líquidos por mês, um soldado em serviço militar obrigatório leva para casa apenas 80 mil kwanzas.
Redacção
Uma diferença de quase 1 milhão de kwanzas mensais que levanta uma questão incómoda: por que razão aqueles que estão na base da hierarquia, muitas vezes expostos aos maiores riscos e às condições mais difíceis, recebem tão pouco em comparação com os que ocupam os postos mais altos? A nova tabela salarial dos militares angolanos volta a colocar em evidência uma realidade que promete alimentar a polémica: a profunda desigualdade remuneratória dentro das Forças Armadas. De um lado, generais com vencimentos líquidos que rondam os 1.050.000 kwanzas; do outro, soldados em serviço obrigatório que sobrevivem com apenas 80.000 kwanzas por mês. Feitas as contas, um general recebe cerca de 13 vezes mais do que um soldado. Em termos absolutos, são 970 mil kwanzas de diferença todos os meses — um valor que representa mais de um ano de remuneração de um militar na base da hierarquia. A disparidade torna-se ainda mais controversa quando se observa a composição dos salários. Além do vencimento-base, a tabela contempla subsídios de representação e de comando, rubricas que aumentam os rendimentos dos postos superiores. Já os soldados, cabos e sargentos permanecem nos escalões mais baixos, sujeitos ainda aos descontos para a Caixa de Segurança Social. O problema não está apenas na diferença entre os salários, mas também na forma como se distribui a remuneração dentro de uma instituição assente na disciplina, na hierarquia e no dever de servir o Estado. Se a hierarquia militar justifica diferenças salariais, até que ponto essas diferenças devem chegar quando os militares de base também assumem responsabilidades, enfrentam riscos e cumprem missões essenciais à defesa nacional? A polémica ganha outra dimensão quando se considera a realidade de quem recebe 80 mil kwanzas mensais. Num contexto de dificuldades económicas e de aumento do custo de vida, esse rendimento levanta dúvidas sobre a capacidade de assegurar necessidades básicas e manter condições de vida dignas, sobretudo para quem tem dependentes. O documento salarial, afixado em unidades militares, detalha as diferentes componentes da remuneração e confirma uma estrutura organizada por postos e funções. Contudo, os valores apresentados alimentam o debate sobre a justiça distributiva nas FAA: será que a responsabilidade de comando explica, por si só, uma diferença tão expressiva entre quem dirige e quem executa? A questão exige mais do que indignação. Impõe transparência sobre os critérios usados para definir vencimentos e subsídios, bem como um esclarecimento sobre as medidas destinadas a melhorar as condições remuneratórias dos militares de base. No fim, permanece uma pergunta difícil de ignorar: quando a defesa da Pátria é uma obrigação partilhada, por que razão o rendimento de quem a serve pode ser tão diferente consoante o lugar que ocupa na hierarquia?

