O MPLA finalmente descobriu aquilo que muitos partidos africanos ainda tratam como ficção científica: concorrência interna sem necessidade de exorcismo político imediato. Depois de décadas onde a unanimidade parecia um mandamento revolucionário e onde qualquer tentativa de disputa interna era tratada quase como tentativa de golpe de Estado emocional, eis que surge um fenómeno raro: dois pesos pesados da mesma geração decidem disputar a liderança do partido sem esconderem ambições, sem metáforas agrícolas e sem discursos excessivamente poéticos sobre “continuidade dinâmica”.
Fonte: Club-k.net
De um lado está João Lourenço, homem que carrega simultaneamente o peso da máquina partidária, do Estado, das promessas de reforma e, sobretudo, dos súbditos políticos que vivem numa permanente ansiedade institucional. Afinal, abandonar o líder seria quase uma tragédia administrativa nacional. Muitos deles passaram anos a acreditar que o MPLA, o Estado e o camarada presidente eram praticamente a Santíssima Trindade da governação angolana. Agora surge o desafio histórico: provar que é possível separar a figura de Presidente da República da figura de Presidente do partido sem provocar um curto-circuito psicológico em certas estruturas habituadas ao centralismo afectivo.
Do outro lado aparece Francisco Higino Lopes Carneiro, conhecido nas bases como homem de terreno, de mobilização e de contacto mais directo com a musculatura partidária. A sua candidatura soa quase como uma provocação elegante ao conforto institucional. Higino parece querer lembrar ao partido que o MPLA nasceu para mobilizar militantes e não apenas para organizar cerimónias protocolares com aplausos sincronizados. A ideia de “reforma profunda” do partido começa lentamente a assustar alguns veteranos que preferem reformas apenas em edifícios e não em mentalidades.
O mais curioso é observar certos militantes em estado de confusão ideológica avançada. Pela primeira vez em muito tempo terão de escolher entre camaradas sem recorrer automaticamente ao velho método científico do “vamos apoiar quem já está sentado”. O militante médio do MPLA encontra-se agora diante de um drama existencial: apoiar a estabilidade da máquina ou a revitalização das bases? Alguns já começaram até a treinar argumentos democráticos em frente ao espelho, algo historicamente raro na cultura política interna do partido.
Mas convenhamos: isto é quase revolucionário. Dois candidatos fortes. Dois projectos. Dois mandatários. Recolha de assinaturas. Regulamentos eleitorais. Debate interno. Tudo isso dentro do mesmo MPLA que durante anos transformou o consenso absoluto numa modalidade olímpica. Quem diria que um dia o partido passaria da coreografia da unanimidade para a avenida competitiva sem necessidade de comunicados inflamados sobre “forças ocultas” e “infiltrações”.
O desafio agora será evitar que a disputa se transforme naquele típico campeonato africano de egos gigantescos, bajuladores profissionais e militantes especializados em fabricar intrigas por atacado. Porque o verdadeiro teste democrático não está apenas em permitir candidaturas. Está em aceitar resultados sem produzir órfãos políticos traumatizados, sem caças às bruxas e sem aquele tradicional espírito de vingança administrativa que transforma derrotados em inimigos públicos temporários.
Se o processo for conduzido com maturidade, o MPLA poderá sair mais fortalecido. Não pela velha propaganda da unidade automática, mas pela demonstração concreta de que um partido histórico consegue renovar-se sem fragmentação nem fraccionamento interno. O povo angolano, cansado de discursos reciclados e promessas plastificadas, talvez comece finalmente a acreditar que a democracia interna deixou de ser apenas decoração estatutária.
Porque, no fundo, 2027 já começou. E o MPLA sabe que manter a confiança popular exigirá mais do que slogans revolucionários e inaugurações apressadas. Será preciso menos culto à personalidade, menos bajulação profissional e mais espírito de compromisso nacional. Caso contrário, o partido corre o risco de descobrir da forma mais dolorosa que o eleitor angolano já não aplaude apenas por disciplina partidária. Hoje ele também observa, compara e, em certos casos, até pensa. O que, convenhamos, continua a ser o maior susto de muitos aparelhos políticos em África.

