O Presidente da República, João Lourenço, assegurou, esta quarta-feira, em Luanda, que nunca existiram “momentos difíceis” nas relações entre Angola e o Gabão, afastando interpretações de tensão entre os dois países.
As declarações foram feitas na Sala dos Tratados do Palácio Presidencial, após o encontro com o seu homólogo gabonês, Brice Clotaire Oligui Nguema, que iniciou uma visita de Estado de dois dias a Angola.
Segundo o Chefe de Estado angolano, o que se verificou foi apenas a aplicação de sanções por parte da União Africana (UA), na sequência dos critérios estabelecidos pela organização para situações de ruptura constitucional.
João Lourenço destacou, no entanto, o esforço das autoridades gabonesas em restabelecer a ordem constitucional, sublinhando que o processo foi amplamente reconhecido pela comunidade internacional.
“O Gabão fez um esforço louvável de reposição da normalidade constitucional, com a realização de eleições livres e justas”, afirmou o Presidente angolano.
Na sequência desse processo, explicou, a União Africana levantou o período de suspensão anteriormente imposto, permitindo o restabelecimento pleno das relações diplomáticas.
Para João Lourenço, o regresso do Gabão à normalidade institucional representa um ganho não apenas para o país, mas também para África e para a comunidade internacional.
O estadista considerou que, ultrapassada essa fase, Angola e o Gabão estão agora em melhores condições para aprofundar os laços de amizade e cooperação.
Recorde-se que o Gabão foi suspenso da União Africana após o golpe de Estado de 30 de Agosto de 2023, liderado por Brice Oligui Nguema, que afastou do poder o então Presidente Ali Bongo.
As sanções implicaram a suspensão da participação do Gabão nas instâncias da organização continental durante o período de transição.
Em Abril de 2025, Oligui Nguema venceu as eleições presidenciais com larga maioria, tendo posteriormente tomado posse, o que abriu caminho ao levantamento das sanções.
Por sua vez, o Presidente gabonês classificou a transição política como “pacífica”, sublinhando o cumprimento rigoroso das orientações da União Africana e das Nações Unidas.
Brice Nguema afirmou que o país seguiu um calendário eleitoral que incluiu eleições presidenciais, legislativas e autárquicas, concluídas no prazo de dois anos.
O líder gabonês fez questão de sublinhar que “o Gabão não tem problemas com Angola”, afastando qualquer ideia de divergência entre os dois Estados.
Segundo disse, as sanções aplicadas foram resultado de normas jurídicas internacionais, às quais o país decidiu sujeitar-se, consciente das suas implicações.
Nguema destacou ainda o papel de vários Chefes de Estado africanos, entre os quais João Lourenço, no aconselhamento durante o processo de transição.
O Presidente gabonês referiu que algumas medidas adoptadas, como a libertação de figuras políticas e o regresso de cidadãos anteriormente afastados, contribuíram para a reconciliação interna.
Salientou igualmente que a construção de um Estado de Direito implica responsabilização, defendendo que os actores políticos devem responder perante a justiça quando necessário.
A aproximação entre Angola e o Gabão ganhou novo impulso em Maio de 2025, com a visita de João Lourenço a Libreville, num momento considerado determinante para o relançamento das relações bilaterais.
Pouco depois, a mediação angolana facilitou a deslocação da família de Ali Bongo para Luanda, contribuindo para a estabilização política no Gabão.
No mesmo encontro com a imprensa, João Lourenço abordou ainda o impacto do conflito no Médio Oriente no sector energético global.
O Presidente angolano considerou que o actual contexto internacional reforça a importância de aumentar a produção petrolífera, apesar dos compromissos ambientais.
Defendeu também que a decisão de Angola de abandonar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e de retomar as obras da refinaria do Lobito se revelou acertada face às actuais dinâmicas do mercado.

