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O passado e o presente do Museu Regional do Dundo

Atentas à exposição geológica, as irmãs Emília e Marta Muabumba, alunas da 8ª classe, visitavam, pela segunda vez e por iniciativa própria, o Museu Regional do Dundo, onde está disponível um acervo de 10.200 peças etnográficas e 30 mil biológicas.

Embora tenham sido encontradas na sala de exposição geológica, as duas irmãs revelaram à reportagem do Jornal de Angola que eram admiradoras do mukixi, uma máscara típica da cultura cokwe.
Antes, à entrada do museu, na denominada sala zero, estão colocadas, nas laterais, duas esculturas de leões e o mapa de Angola ao centro. Desde 2009 como funcionário do museu, o coordenador do Departamento de Educação e Animação Cultural, Ilunga Chibango, explicou que, à semelhança de uma aldeia, os leões são considerados os guardiões do Museu.
“Na cultura cokwe, esses felinos representam os guardiões da aldeia. Numa aldeia ninguém pode entrar sem contactar o soba. Se não cumprir com esse ritual, esses leões tem o dever de impedir que essa pessoa entre na aldeia”, disse o especialista em linguística, formado na Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte.

O mapa de Angola, acrescentou, representa a migração dos povos que habitam a Lunda-Norte, Lunda-Sul, Moxico, Cuando Cubango e parte do Bié. “Estes povos são provenientes da região dos grandes lagos”, disse.
As primeiras obras do Museu Regional do Dundo foram doadas por José Redinha, um antigo funcionário do estado, colocado no posto administrativo do Chitato. Apaixonado pela cultura cokwe, Redinha passou uma boa parte da vida a coleccionar obras, a desenhar cenas e a fazer retratos do quotidiano dos povos da região Lunda Cokwe.
Num regresso ao passado, o director do Museu Regional do Dundo, Ilunga André, explicou que, em 1936, quando decidiu regressar para Portugal, José Redinha ofereceu a sua colecção à ex-companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), a actual Endiama. Em jeito de homenagem, acrescentou, os colegas realizaram uma exposição na Casa de Pessoal da Diamang (hoje, Casa de Pessoal da Endiama).

Para a conservação e preservação das peças doadas por José Redinha, a colecção ficou exposta numa modesta habitação da DIAMANG. “É assim que o director-geral da Diamang convida-o para criar o Museu do Dundo. E ele aceitou”, lembrou o biológo que, desde 2018, dirige o Museu Regional do Dundo.
Redinha conduziu pessoalmente as obras de construção do museu, sendo considerado um dos impulsionadores da actividade museológica na Lunda-Norte, em particular, e no país, em geral. “As obras começaram em 1942 e terminaram em 1947. Em 1948, estavam criadas as condições para exposição, conservação e preservação do acervo então existente. E José Redinha foi, de facto, o primeiro conservador do museu”, destacou.

Na altura, por ser constituído exclusivamente por peças etnográficas, passou a denominar-se Museu Etnográfico do Dundo. Para completar os trabalhos de investigação etnográfica, foi construída, nas proximidades, uma aldeia denominada Sakabumba, cujo primeiro chefe foi o soba Sakamana, autoridade tradicional que trabalhou como guia no museu.
“Quando a Endiama convidasse as autoridades tradicionais, o soba Sakamana os recebia com todos rituais e fazia uma visita guiada, deixando-os felizes por verem a cultura cokwe exposta no Museu”, disse.
Além das colecções etnográficas, a ex-companhia de diamantes desenvolveu também uma campanha de recolha de espécies de animais, que viriam preencher um vazio que se fazia sentir no campo da história natural, resultando na criação do Laboratório de Investigação Biológica.

O progressivo alargamento dos objectivos do Museu, levou, em 1945, à mudança do nome para Museu do Dundo. “Antes, o Museu compreendia apenas colecções etnográficas, por isso era denominado Museu Etnográfico. Com a inclusão da área de História Natural, passou a ser Museu do Dundo”, esclareceu o director.
Em 1957, além das colecções etnográficas e biológicas, o Museu do Dundo começou a mostrar interesse pela arqueologia. Neste sentido, foram feitas descobertas arqueológicas na margem esquerda do rio Luachimo, onde foi criada a Estação Arqueológica de Bala-Bala, localizada a quatro quilómetros do Museu Regional do Dundo.
Devido a distância, entre o museu e a zona das escavações, foi, mais tarde, construído um edifício nas proximidades para a conservação e preservação de todo acervo arqueológico.

“Este é um museu multidisciplinar, porque abarca três áreas, designadamente, a Arqueologia, Biologia, que denominamos de História Natural, e a Etnografia, sua principal vocação. Portanto, aqui existem `três museus´ num só. Por isso, para ser director do Museu do Dundo, de acordo com o estatuto orgânico, aprovado a luz do Decreto Executivo nº 254/12 de 8 de Agosto, deve ser professor doutor”, sublinhou Ilunga André que, além de licenciado em Biologia, pelo Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED-Huíla), é mestre em Geologia pela Universidade de Coimbra e doutorando em Geologia pela mesma instituição.
Segundo Ilunga André, com o alargamento da investigação, o Museu do Dundo começou a afirmar-se como um verdadeiro complexo museológico, interdisciplinar e polivalente, razão pela qual os trabalhos de Etnografia, Historia Natural e Arqueologia foram realizados e publicados por especialistas de renome internacional, que tornaram a instituição mais conhecida em Angola, África e no mundo.

“Por este facto, foi considerado um dos melhores museus de África e contava, na altura, com cerca de 300 correspondentes científicos em todo o continente”, destacou.
Até 1974, lembrou, a direcção do Museu era constituída por cidadãos estrangeiros. Antes da Independência Nacional, tendo estes abandonado o país, o museu foi encerrado temporariamente, até que foram criadas as condições para a reabertura, no dia 11 de Novembro de 1976. “A partir dessa data, passou a ser denominado Museu Nacional do Dundo”, disse.
Ainda no mesmo ano, tendo em conta as dificuldades financeiras, o museu passou a dedicar-se às actividades de conservação e preservação do acervo, acabando, assim, com os trabalhos de investigação.

Museu mais visitado entre 1980 e 1994
Apesar de estar situado numa pequena cidade, o então Museu Nacional do Dundo foi o mais visitado no país, no período entre 1980 e 1994, quando recebeu mais de 350 mil pessoas, numa média de mais de 25 mil pessoas por ano.
Um pouco antes da pandemia, o museu recebiam entre 200 e 300 pessoas por dia. “De forma organizada, entravam 30 ou 40 pessoas por visita”, explicou o director, acrescentando que com o surgimento da Covid-19, passaram a fazer visitas compostas apenas por dez pessoas.
“À semelhança de outras instituições, tivemos de adoptar medidas de prevenção contra a Covid-19. Por isso, se recebermos 30 ou 40 visitantes, entram primeiro dez e assim sucessivamente”, esclareceu.     

Nova mudança de designação
Em 1994, houve novamente a mudança de designação, passando de Museu Nacional do Dundo para Museu Regional do Dundo.
Depois de ter beneficiado de obras de reabilitação, foi reaberto no dia 12 de Agosto de 2012. Inicialmente, ficou fechado, de forma temporária, em  2006, para obras de reabilitação, financiadas pela Endiama. “Como havia alguns erros, foi novamente encerrado, em 2008, e reaberto em 2012”, disse.
Apesar das obras de reabilitação, o museu manteve a estrutura original, por isso foi classificado como Património Histórico Cultural no dia 6 de Agosto de 2012.

Contrariamente ao que acontecia no passado, em que as peças eram doadas, compradas ou recolhidas nas zonas mais próximas e longínquas, hoje, o museu tem comprado os objectos que compõem a colecção, mas antes passam por uma rigorosa avaliação para se saber a história, significado e valor no contexto social e cultural da região.
“Hoje, verificamos, de forma tímida, algumas pessoas que trazem peças para comprarmos. Mas, antes, fizemos uma avaliação. Não podemos receber peças sem história”, defendeu.
O museu tem feito um esforço para conservação e preservação do acervo. Ilunga André admitiu “não ser uma tarefa fácil”, pois é um trabalho que implica muito investimento, principalmente em recursos humanos e produtos químicos que, segundo ele, “não são baratos”.

“Há objectos que no seu manejo, se for mal feito, podem quebrar. Por isso, requer formação, produtos químicos para conservação e restauradores para aquelas peças que tem algumas partes quebradas”.
Défice de recursos
humanos
O Estatuto Orgánico do Museu Regional do Dundo estabelece que a instituição deve ter entre 80 e 90 funcionários. Para Ilunga André, esse número é insuficiente devido a  complexidade e especificidade do museu. “Este número é irrisório para um Museu dessa dimensão”, afirmou, acrescentando que são necessários biológos, arquiológos, geológos, etnológos, antropológos, conservadores, restauradores, taxidermistas (especialistas que se dedicam à conservação de animais mortos, para montar uma estrutura realista), guias, vigilantes e administrativos. “Infelizmente, estamos desprovidos desses especialistas”, lamentou.

Até recentemente, o museu contava com 26 funcionários, mas ficaram reduzidos a 15, devido ao falecimento de alguns e a reforma de outros. “Destes 15, metade vai já para a reforma. Corremos o risco de ter um museu de dimensão nacional e internacional com apenas sete ou oito funcionários. A preocupação já foi apresentada ao Ministério de tutela, no sentido de dar solução”, garantiu.
Face esta situação, Ilunga André defendeu o recrutamento de pelo menos metade dos funcionários previsto no Estatuto Orgânico, para cumprir 80 por cento do seu objecto social, e acredita que o mercado nacional tem mão-de-obra suficiente para satisfazer as necessidades do museu.

“Temos parceria com o Museu de Historia Natural, em Luanda, com quem temos trocado experiência na área de formação, com a Universidade Agostinho Neto, que tem formado muitos biológos e antropológos. Temos, também, parceria com o Museu de Historia Natural e Ciências da Universidade do Porto, para a formação contínua dos nossos quadros, porque a ciência é dinâmica. Contamos, igualmente, com a Universidade Lueji Ankode, porque precisamos de pedagogos e linguistas, porque recebemos visitantes de várias nacionalidades”, disse.

Depósito-geral
A conservação e preservação do acervo implica ter espaço disponível para o número de peças que o Museu Regional do Dundo possui. Para resolver o problema da falta de espaço, na parte traseira do edifício, começou a ser construído um depósito-geral para a conservação dos objectos. Infelizmente, devido à crise económica, agudizada com o surgimento da pandemia da Covid-19, as obras foram suspensas em 2014.
 “O Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, em breve, irá anunciar a empresa que vai concluir as obras”, assegurou Ilunga André.
Enquanto não se concluem as obras do depósito-geral, foram criadas seis salas provisórias para a conservação e preservação de todo acervo museológico. As seis salas, em princípio, foram projectadas para a montagem de um auditório, cujo material, adquirido em Portugal, já se encontra no Dundo, desde 2019, áreas do conhecimento tradicional e moderno, bazares e de exposição de curta duração.
“Caso esses projectos sejam implementados, onde será colocado o acervo que ali está guardado”, questionou-se .
O museu possui também uma biblioteca com cerca de 25 mil livros sobre história, museologia, biologia, entre outras áreas do saber.
Novo inventário
 Quando for concluído o depósito-geral, será feito um novo inventário do acervo do Museu Regional do Dundo. A documentação actualmente disponível indica que existem 10.200 objectos etnográficos e 30 mil peças biológicas, ou seja, de História Natural.
“Quanto ao acervo arqueológico, até hoje, nunca foi inventariado. Aguardamos que, com a conclusão do depósito-geral, seja feito um novo inventário, não só do acervo arqueológico dos objectos etnográficos e biológicos”, perspectivou.
O Museu Regional do Dundo, que conta actualmente com 10 salas (anteriormente eram 14) tem objectos para a montagem de inúmeras exposições. De acordo com as orientações do Conselho Internacional dos Museus (ICOM), uma exposição pode durar 10 anos. A actual exposição do museu foi montada em 2012, aquando da sua reabertura.
Além do depósito-geral, está em carteira a construção do novo Laboratório de Investigação Biológica, já que o anterior foi demolido devido ao estado avançado de degradação. “Já temos a planta da obra e aguardamos apenas pela empresa que ganhar o  concurso para a execução dos trabalhos”, disse.
Um museu sem orçamento
O Estatuto Orgânico, aprovado a luz do Decreto Executivo nº 254/12 de 8 de Agosto,  concede autonomia financeira, administrativa e patrimonial ao Museu Regional do Dundo. Apesar disso, a instituição não tem orçamento próprio. Mensalmente, é alocada uma verba pelo Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente para o funcionamento para a gestão corrente da instituição. “Mas precisamos ter a autonomia financeira plasmada no estatuto orgânico”, defendeu Ilunga André.

O ano passado, foi aprovado o Decreto Presidencial 107/20 de 20 de Abril, que orienta a cobrança de taxas de acesso aos museus a nivel do país, que começa a ser implementado, a partir de amanhã, no Museu Regional do Dundo.
O Decreto determina que os visitantes dos 13 aos 18 anos, sem acompanhamento de guia, devem pagar 175 kwanzas. Com acompanhamento de guia , o valor é de 264 kwanzas. Já dos 19 aos 60 anos, sem acompanhamento de guia, pagam 254 kwanzas, e, com o acompanhamento de guia, o valor sobe para 352 kwanzas. “Esses valores serão depositados na Conta Única do Tesouro”, frisou, acrescentando que os menores de 12 e os maiores 60 anos estão isentos de pagamento.
O Dia Internacional dos Museus é celebrado anualmente a 18 de Maio. A celebração da data é feita desde de 1977, por proposta do Conselho Internacional de Museus.

Obras recuperadas
Há vários anos, muitos objectos do Museu Regional do Dundo foram levados, de forma ilegal, para fora do país, principalmente para a Europa. Em 2018, oito peças foram recuperadas no Reino da Bélgica pela Fundação Sindika Dokolo. Entre elas, está a celebre máscara mukixi wa puo, vulgarmente conhecida como máscara muana puo, além de alguns bancos, cachimbos e a máscara txikunji, usada por um chefe tradicional.
Ilunga André acre-
dita que outras peças serão localizadas e recuperadas. Outras, como as máscaras txikuza e txikumbi, foram encontradas num museu de Londres, na Inglaterra, que admite devolve-las, mas desde que sejam criadas as condições de segurança para o efeito.
“São máscaras do povo cokwe, que devem voltar para o seu contexto social e cultural. Por isso, as condições estão a ser criadas, no âmbito da política de reorganização dos museus do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente”, assegurou.

Acervo imaterial

Em parceria com um musicológo espanhol, o Museu Regional do Dundo está a trabalhar, desde 2019, na recuperação da música folclórica cokwe, que está em fita magnética e que corre o risco de se perder. A ideia é converter esse registo magnético em formato digital, para conservar e perpetuar o acervo imaterial do museu.
Ilunga André assegurou que o trabalho “está a correr bem” e já apresentaram uma proposta a União Europeia, através do Instituto Camões, para financiar a produção de CD, que seriam comercializados para arrecadação de receitas para a manutenção do edifício e conservação do acervo museológico.

Fonte:JA

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