De um tempo a esta parte, os jovens reduziram à prática de garimpo de ouro por que o trabalho era duro de mais e dificilmente conseguia-se extrair por dia mais de 5g de ouro, era um ou outro que com sorte alcançava a este desiderato, a maioria ficava à mercê do sacrifício sem benefício. Lá a vida passava até que em surdina ouviu-se na senzala que na aldeia de Missaxi havia jazidas de ouro em abundância, a notícia circulou entre os jovens, mas nem todos acreditaram sinceramente na informação porque o arrependimento pelo sacrifício experimentado anteriormente deixou-lhes traumatizados. Felizmente, alguns tentaram e viram que as jazidas de Missaxi é próspera, por dia houve quem conseguiu extrair mais de 50g a 300g, foi daí que um dos garimpeiros hipnotizado pela emoção da conquista de ter extraído 100g num só dia, vai até a Kana-Kassala espalhar a boa nova, segundo a qual a mina do Missaxi é recomendável.
Os jovens das aldeias de Kana-Kassala, Kifula e outras se convocaram e decidiram ir extrair em Missaxi em massa, foi assim que por volta das 04h00 partiram para a mina numa jornada de 6KM, mais de trinta pessoas incluíndo senhora com o seu filho, família inteira (pai e filhos, primos, irmãos, amigos e etc…
As jazidas de Missaxi, recém-descobertas pela comunidade pertencem a um terceiro que não se alegrava com o garimpo ilegal no seu terreno já havia proibido que tal acto acontecesse na sua propriedade contra a sua vontade, infelizmente, a vontade de ganhar a vida falou mais alto para os garimpeiros.
Era uma manhã cinzenta em que a sorte parecia mais perto do que a desgraça, todos extraíam em volta de alegria e expetativas altas, a mina contava com um túnel de quase sete metros de profundidade por onde os garimpeiros faziam cavações a volta do mesmo para se alcançar o filão, como se tratava de um assalto clandestino, então os garimpeiros extraíam boa quantidade de terra, metiam no saco e deixavam em cima do buraco porque a intenção foi de refinar o produto em kana-Kassala, longe do perigo do olhar das autoridades.
A euforia iludia a expetativa coletiva dos garimpeiros na medida em que alguns que estavam em cima do túnel advertiam a possibilidade de movimento estranho da terra mas os que estavam no túnel simplesmente menosprezaram à salvação. Minutos depois a terra obedeceu a gravidade do talude e desabou sobre eles, com peso enorme, alta pressão e pedregulhos que feriram as vítimas em várias regiões do corpo, a distância do túnel foi tal que a chance de sobreviver foi reduzida substancialmente.
Horas depois toda a comunidade apercebeu-se do infortúnio e afluíram no local na tentativa de efetuarem busca, resgate e salvamento das vítimas. Tal qual o processo do garimpo, a busca, resgate e salvamento das vítimas obedeceu ao karma, foi igualmente artesanal.
O mensageiro que havia adquirido 100g na extração anterior, também perdeu a vida na tragédia quando pretendia acrescentar um pouco mais na sua reserva. Estavam todos a viver um dia de sorte com sabor da desgraça.
Quando o pânico se instalou na senzala, o alarme foi acionado a todos os compradores do precioso mineral estratégico ao ponto de se colocarem em fuga por que o esquema do garimpo tem a sua teia de cumplicidade entre os garimpeiros, compradores e algumas individualidades afetos aos órgãos de segurança do Estado particularmente da polícia nacional.
Os jovens movimentaram meios artesanais para retirar a terra sobre as vítimas, foi um acto isolado que não contou com apoio das autoridades locais, do corpo civil de bombeiro do INEMA ou da Polícia Nacional. Eram sobretudo os familiares consternados com a situação que se voluntariaram para o efeito.
Conseguiram retirar cerca de 28 cadáveres e 4 sobreviventes feridos, adaptaram tipóias por onde levaram as vítimas, segundo informações que obtive a administração municipal de NAMBUANGONGO junto do Governo Provincial do Bengo, prometeram aos familiares das vítimas que disponibilizariam viatura para recolha dos cadáveres e respetivas distribuição nas morgues, a comunidade aguardou até 19h a viatura prometida pelas autoridades governamentais não chegavam no terreno, foi daí que voluntariamente os familiares pegaram jogaram alguns cadáveres na bagagem do turismo e outros foram amontoados na carroceria de uma carinha e levados na morgue apenas quando eram perto de 20h de Sábado. Seja a morgue de Bukula, Barra do Dande quanto a de Caxito, ficaram sem espaço e as famílias foram obrigadas a circular com os cadáveres da até perto de meia noite porque as 23h deixaram alguns na morgue do hospital de Cacuaco e outros foram até a morgue central do Maria Pia.
O governo local determinou que as famílias têm de realizar o enterro o mais tardar nesta segunda-feira 25 de Maio de 2026, especula-se de que o governo provincial prometeu disponibilizar caixão para cada família, mas ao momento ainda não temos alguma confirmação concreta.
A tragédia provocou tamanho terror sem qualquer precedente, na história contemporânea da guerra civil que durou 27 anos ou seja, das vezes que a UNITA tentou sem sucesso conquistar a região de NAMBUANGONGO, nunca se registou um número de mortes igual, o meu povo baixou de divisão no que diz respeito a sua resiliência peculiar, não se deixou derrotar assim nem pela guerra colonial muito menos pela guerra civil mas acomodou-se à miséria do MPLA que aceita morrer humilhantemente como nesta famigerada tragédia de sábado.
Fala-se em 28 cadáveres recolhidos no sábado e neste domingo fala-se em perto de 14 cadáveres, perfazendo um total de 42 mortos. A aldeia mais assolada é a de Kifula por onde parte esmagadora da sua juventude perdeu a vida nessa tragédia, em Kana-Kassala são 18 vítimas mortais, houve vítimas de Kinguimbi também. O Kifula foi tão arrasado que não sobrou força suficiente para cavar as covas dos seus filhos e tiveram que contar com o apoio de alguns jovens provenientes de Kana-Kassala.
Que Nzambi console as nossas famílias e nos dê coração suficiente para suportamos tamanha dor!
OBS: nas imagens a baixo temos algumas campas preparadas para as vítimas da aldeia do KIFULA.
Texto de: #KimdeAndradeKabandasule
#Nambuangongo
#25.05.2026

