Angola: “Assimetrias muito acentuadas” ferem paz e reconciliação, diz bispo de Saurimo

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D. José Manuel Imbamba, que preside à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, espera que visita do Papa ajude a “despertar consciências”, sobretudo da classe política, para que haja mais “justiça social” no país, que continua “excessivamente partidarizado” e com “assombramentos do passado”, mas onde a Igreja vai continuar a ser “construtora de pontes”.

Fonte: Renascensa

A visita do Papa a África vai ajudar a que se valorize mais as pessoas e não apenas as riquezas naturais que ali podem ser exploradas. É essa a convicção do bispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).

Em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia, D. José Manuel Imbamba fala dos preparativos para receber Leão XIV em Angola, um país “empobrecido”, onde a filiação partidária continua a falar mais alto, mas onde existe uma “cultura religiosa acentuada” e a Igreja é uma “força viva” e uma “voz crítica”, que “continuará a desempenhar o seu papel”.

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Angola vai receber dentro de alguns dias a visita do Papa Leão XIV. A Conferência Episcopal Angolana sublinhou recentemente que esta será uma ocasião propícia para curar as feridas internas de Angola. Que feridas concretas, a nível social, político e espiritual, é que precisam de ser saradas com mais urgência no país?

Angola vive um processo de reconciliação. Depois dos anos de guerra fratricida que vivemos e 24 anos de paz efetiva, ainda sentimos que há fissuras na nossa consciência, há fissuras no modo como nós narramos a nossa história, há fissuras nas próprias memórias históricas. E fissuras essas que não ajudam a criar aquela cidadania que todos nós pretendemos. O país está excessivamente partidarizado, o país está empobrecido, o país está com assimetrias muito acentuadas e tudo isto fere a paz, fere a reconciliação, fere a harmonia que todos nós pretendemos enquanto cidadãos.

Então é por isso que fazendo jus ao lema da própria visita do Santo Padre, “Peregrino de Esperança, Reconciliação e Paz”, queremos verdadeiramente sentir esta renovação, esta interpelação, esta capacidade de ir ao encontro do irmão e abraçá-lo, esta capacidade de nos aceitarmos apesar das nossas diferenças, essa capacidade de fazermos, digamos assim, um exorcismo à nossa própria maneira de viver a nossa história e tudo aquilo que aconteceu. Porque os assombramentos do passado ainda continuam a impedir o abraço fraterno. Os assombramentos do passado continuam a impedir o reconhecimento do mérito, o reconhecimento da cidadania, o reconhecimento do outro independentemente das suas filiações partidárias.
A crise social no último ano provocou muitos protestos de rua, que nós também acompanhamos desde cá. A situação hoje está mais estável?

A situação está estável, aquela foi uma fase crítica que nós vivemos naquela altura, mas o calor social continua alto, porquanto os problemas ainda continuam sendo adiados. Há muito desemprego, muita insatisfação, as políticas públicas ainda não conseguem dar as respostas esperadas. E é claro, apesar dessa estabilidade, apesar dessa harmonia que se faz sentir, mas as tensões sociais ainda se mantêm vivas, por causa da vida, cara, que os cidadãos estão a experimentar. Isso está a provocar muito a fuga dos jovens para outras paragens do mundo.
Leão XIV vai a regiões onde anteriores Papas não estiveram, é o caso da Diocese de Saurimo, onde D. José é bispo. Teve influência na escolha desta etapa da viagem?

Até certo ponto, sim, posso assumir isso, por uma razão muito simples: as anteriores visitas papais tiveram lugar no norte da Angola, no litoral, no centro-sul, e nunca o leste tinha sido visitado. Tendo havido esta oportunidade, claro, era a hora da região leste também poder acolher um Papa. E é o que está a acontecer, é o que vai acontecer.
Saurimo tem registado um crescimento demográfico, também devido à chegada de migrantes provenientes de zonas de conflito. Que mensagem é que o Papa pode transmitir à África, ao mundo, a partir desta região concreta de Angola?

A mensagem será no sentido de despertar um pouco as consciências, quer dos nossos governantes, como as de todos aqueles que exploram minério nesta região, para que valorizem mais a riqueza humana, para que valorizem mais as pessoas, as comunidades humanas, que não olhem só pela matéria-prima enquanto tal. Que tudo aquilo que a natureza oferece possa, de facto, valorizar mais a dignidade da pessoa humana, o desenvolvimento integral e tudo aquilo que produz felicidade e bem-estar nas pessoas.

E, por isso, acho, é um apelo à justiça social, ao respeito da dignidade humana, a não maltratar as pessoas. Acontecem várias injustiças nas zonas de garimpo, de diamante, e tudo isto vai fazer com que o apelo à valorização da pessoa, da convivência, do desenvolvimento e da renovação cultural, seja reiterado pelo Santo Padre.
O roteiro da visita contempla uma deslocação a Muxima, o coração da religiosidade popular em Angola. Qual é a importância de colocar “Mama Muxima” no centro desta peregrinação da esperança e que impacto poderá ter nos fiéis de todo o país?

Como acabou de dizer, a Muxima hoje representa o coração espiritual do nosso país. Todos acorremos lá para pedir bênçãos, graças e tudo aquilo que faz bem a cada fiel e à nação, no seu todo. E, ademais, Muxima hoje transformou-se em um santuário nacional. Os bispos da CEAST decidimos elevar à categoria de santuário nacional. Há toda uma envolvência transformada, o governo da Angola tomou esta brilhante iniciativa de transformar a Vila da Muxima no seu todo, o que está a incluir também a construção da Basílica Mama Muxima e toda a esplanada que vai comportar.
Por isso, a ida do Santo Padre a este lugar sacro vai significar um reconhecimento à devoção mariana, um reconhecimento histórico daquele lugar e também dar jus às promessas que os Papas anteriores tinham recebido dos nossos presidentes quanto à reconstrução daquele lugar, para prestar melhor serviço religioso a todos os peregrinos da Angola, e não só, que têm beneficiado daquele lugar.
Nos últimos dias temos tido acesso a imagens televisivas em que aparece de capacete, a acompanhar os preparativos no terreno. Quais são os maiores desafios logísticos que a organização também está a enfrentar para garantir a segurança, a receção e a deslocação de milhares de fiéis?

Estamos a trabalhar para criar todas as condições indispensáveis para que a visita e as celebrações decorram num ambiente festivo, belo e bem apresentado. Daí os trabalhos, que estão em curso, já em fase final, diga-se. Eles representam também todo o esforço conjunto que estamos a fazer para que o Santo Padre se sinta bem acolhido e que o ambiente onde ele passar também seja digno para as grandes celebrações que teremos.

Nos últimos dias o Vaticano divulgou o Missal oficial da viagem e ele inclui intenções de oração para várias celebrações, muito incisivas: pede-se o fim da corrupção, o alívio da pobreza, alerta-se para o desemprego que sufoca a juventude. Tendo em conta este guião litúrgico, espera que as intervenções do Papa possam também abanar a consciência da classe política angolana?

Como acabei de dizer, uma visita de um Papa mexe com todos os segmentos da sociedade e é por isso que a sua vinda é um despertar, é um encorajar, é um incentivo, que vai, de uma ou de outra maneira, despertar-nos todos para as nossas responsabilidades. Para a classe política, de modo particular, das responsabilidades que sobre eles pendem, no sentido de trabalharem afincadamente para o bem das comunidades e dos cidadãos. E este apelo às lideranças éticas que são necessárias no nosso contexto para podermos, de facto, trabalhar para o bem comum e para o bem das pessoas.

O programa da visita inclui apenas um encontro com o Presidente angolano no Palácio Presidencial, logo no primeiro dia. Seria importante, na sua opinião, que o Papa pudesse reunir-se com outros dirigentes políticos?

Isto não está previsto, o único encontro que incluirá outros dirigentes políticos será, em conjunto, na receção que o Papa dará ao corpo diplomático, à sociedade civil e aos políticos. Mas creio que, noutros contextos, por que não? Os outros Papas anteriores assim o fizeram, desta vez não será o caso, mas para eles também, uma palavra será dirigida.

Olhando também para aquilo que a liturgia já nos vai permitindo saber, uma das intenções da oração convida a Igreja Católica em Angola a ser “instrumento de reconciliação, sinal de unidade”, que vem muito ao encontro do lema da viagem. Como é que avalia a capacidade da Igreja Católica atuar como ponte de diálogo entre a sociedade civil e o poder político?

A Igreja já cumpre esta missão. Ao longo dos anos, desde todos os tempos dos conflitos e agora na consolidação do processo da paz e da reconciliação, a Igreja sempre foi uma mãe, uma medianeira, uma construtora de pontes e incentivadora de diálogos. E é por isso que este papel continua ativo.

Aliás, em novembro passado, nós realizámos um congresso de reconciliação cujos resultados foram muito bons; estamos a editar o livro para darmos sequência a tudo aquilo que aí se decidiu. Por isso, a Igreja continuará a desempenhar este seu papel. É uma força viva, é uma mãe que acolhe todos e esta voz crítica e profética que ainda ecoa por este nosso país para ajudar a que os valores divinos e os valores humanos não sejam descurados, não sejam desqualificados por causa das apetências políticas e de poder.
A Angola celebrou em 2025 os 50 anos da independência, referiu-se a essa iniciativa da Igreja, o Congresso da Reconciliação. As relações entre a Igreja e o Estado estão numa fase positiva?

Sim, estão numa fase muito positiva. Desde 2019 o Estado angolano e a Santa Sé assinaram um acordo-quadro que rege as nossas relações. E na base deste acordo-quadro temos trabalhado, temos dialogado, temos colaborado, sem grandes sobressaltos. É claro que este é um trabalho muito ativo que vai continuar a ser feito, para que esta colaboração, este diálogo – sem nos demitirmos das nossas responsabilidades enquanto líderes espirituais e profetas – continue, para que Angola fale mais alto, a cidadania fale mais alto, e a irmandade fale mais alto também.
No dia 21 de abril, quando o avião papal levantar voo rumo à Guiné Equatorial, qual é o maior legado, o fruto pastoral, que a Conferência Episcopal espera que fique enraizado nas comunidades católicas de Angola?

O maior legado é mesmo aquele de sentirmos que esteve no meio de nós o vigário de Cristo, que veio fortalecer a nossa fé, que nos veio encorajar para que o nosso discipulado produza mais frutos de libertação, de salvação. É um legado que nos vai animar para que a Igreja angolana seja mais dinâmica, mais próxima das pessoas, mais solidária, mais coesa, uma Igreja que saiba, de facto, ser boa intérprete dos sinais de Deus nesta história que está a acontecer, no país e não só.

Esta viagem e tudo aquilo que ela representa para a Igreja Católica em Angola é um sinal importante no contexto dos 500 anos da evangelização?

Sem dúvida. A Igreja angolana é a Igreja mais antiga na África subsariana. É uma Igreja que já tem uma tradição, tem uma cultura religiosa muito acentuada e por isso esta força anímica, esta força religiosa vai ajudar a que sejamos sempre esta presença viva, esta presença salutar, este testemunho que não se apaga com os ventos que correm no nosso país.

A visita do Papa inclui Argélia, Camarões e Guiné Equatorial. É importante a África estar no centro das atenções? Este roteiro é também uma forma de lembrar ao mundo que tem de olhar para a África?

Claro, é aquilo que os Papas anteriores sempre frisaram. África, hoje por hoje, é o pulmão, é o ar novo do Cristianismo para o mundo. E por isso é uma realidade que não pode ser descurada.

O continente africano está cheio de jovens vigorosos, jovens sonhadores, jovens corajosos a quem é preciso dar espaço, dar tempo para que continuem a concretizar os seus sonhos. E esta vinda do Santo Padre ao continente é um despertar, porque infelizmente o continente africano é tido só como um espaço, como um lugar para se extrair riqueza e matéria-prima.

Não há aquela valorização dos cidadãos que constituem este continente, como se referiu naquela histórica que o Papa Francisco fez à República Democrática do Congo [2023] e na veemente mensagem que ele deixou para o mundo. Creio que é nesta senda que nós devemos viver e interpretar a vinda do Santo Padre, nestes tempos para a África. Para que a África seja, de facto, um continente de pessoas e não um continente de coisas.

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