Comunicação do Presidente da República: o ego que se sobrepõe ao Estado?

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A morte do antigo ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Domingos Augusto, ocorrida em Luanda no dia 5 de Junho, em consequência de doença, provocou uma ampla onda de consternação nacional. Multiplicaram-se as mensagens de condolências à família, bem como os testemunhos de reconhecimento pelo percurso político e diplomático de uma figura que dedicou grande parte da sua vida ao serviço do Estado angolano.

Por: Carlos Alberto/Jornalista

Como seria expectável, o Presidente da República, João Lourenço, endereçou à família enlutada uma mensagem de condolências em nome do Governo de Angola e em seu nome pessoal. Na mensagem, destacou as qualidades humanas e profissionais de Manuel Augusto, reconhecendo o seu contributo para a governação do país e, em particular, para a afirmação da diplomacia angolana. Trata-se de um gesto institucional perfeitamente legítimo e compatível com a relevância das funções que o malogrado desempenhou ao longo da sua carreira.

Contudo, uma semana antes, o país tinha igualmente sido confrontado com a morte de Dom Zacarias Kamwenho, Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Lubango, falecido a 29 de Maio de 2026, em Luanda, onde se encontrava internado devido ao agravamento do seu estado de saúde, conforme informou a Comissão Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).

A dimensão moral, social e histórica de Dom Zacarias Kamwenho é amplamente reconhecida na sociedade angolana. O seu papel na promoção da paz, da reconciliação nacional e da defesa da dignidade humana conferiu-lhe um lugar de destaque na história contemporânea do país. Por essa razão, causou estranheza o facto de não ter sido tornada pública qualquer mensagem de condolências por parte do Presidente da República, quer em nome do Estado, quer na qualidade de mais alto magistrado da Nação.

A questão não reside na homenagem prestada a Manuel Augusto, cuja legitimidade é inquestionável. O que suscita interrogações é a aparente discrepância de critérios na forma como determinadas personalidades são reconhecidas institucionalmente após o seu desaparecimento físico. Em matérias desta natureza, os gestos simbólicos do Estado possuem um significado que ultrapassa a mera formalidade protocolar, constituindo também uma expressão dos valores que orientam o exercício do poder e a memória colectiva da Nação.

É neste contexto que ganha particular relevância a reflexão sobre a erosão da autoridade moral das instituições. Num momento em que decorre o processo de preparação, organização e realização do IX Congresso Ordinário do MPLA, têm-se acumulado episódios que alimentam dúvidas quanto à coerência entre os princípios proclamados e as práticas efectivamente observadas. A sucessão desses acontecimentos tem exposto o partido a um crescente desgaste público e, por arrastamento, tem afectado a própria autoridade e dignidade institucional.

Mais preocupante ainda é que o silêncio perante factos susceptíveis de gerar ampla incompreensão social raramente contribui para dissipar dúvidas ou restaurar a confiança. Pelo contrário, tende a reforçar a percepção pública de que critérios de conveniência circunstancial passaram a prevalecer sobre princípios de equidade, coerência e respeito institucional. Quando essa inconformidade se instala, o problema deixa de se circunscrever à esfera partidária e passa a projectar-se sobre o próprio Presidente da República, enquanto órgão de soberania e principal referência moral e institucional do Estado angolano.

É justamente por isso que a repetição de práticas controversas não apenas não resolve os problemas que as originam, como tende a agravá-los de forma cumulativa, corroendo progressivamente a confiança institucional e ampliando a distância entre governantes e governados; uma irregularidade não se converte em normalidade democrática pelo simples facto de se repetir ao longo do tempo, pois a frequência pode gerar habituação e enfraquecer a resistência social, mas não elimina nem atenua as razões de fundo que alimentam a indignação pública; o hábito não transforma o erro em virtude, nem a recorrência converte a anomalia em legitimidade, e quando práticas contestáveis se tornam rotina, o que se normaliza não é a governação, mas sim a erosão silenciosa dos princípios que deveriam sustentá-la.

Esta realidade torna-se particularmente evidente quando observamos a forma como o poder reage a acontecimentos de elevada relevância moral e simbólica para a sociedade. A ausência de uma mensagem de condolências de João Lourenço, Presidente da República e candidato à sua própria sucessão na liderança do MPLA, pela morte de Dom Zacarias Kamwenho, constitui um gesto difícil de ignorar. Independentemente das divergências políticas ou institucionais que possam ter existido, Dom Zacarias pertence ao património moral da Nação angolana. Foi uma voz incontornável na defesa da paz, da reconciliação nacional, da justiça social e da dignidade humana, valores que transcendem conjunturas partidárias e interesses circunstanciais.

Outrossim: a morte tem, por natureza, uma dimensão reconciliadora, na qual as rivalidades perdem relevância e os antagonismos cedem lugar ao reconhecimento da obra e do legado daqueles que marcaram uma época; é precisamente nesses momentos que se espera da liderança política uma demonstração de grandeza, humanidade e sentido de Estado. O silêncio institucional perante o desaparecimento de uma figura da envergadura de um digno vencedor do Prémio Sakharov, atribuído em 2001 pelo Parlamento Europeu em reconhecimento da sua firmeza, imparcialidade e persistente luta pela paz, pela democracia e pelos direitos humanos em Angola, não constitui apenas uma omissão protocolar, mas pode ser interpretado como sintoma de uma preocupante insensibilidade política e de um crescente afastamento em relação aos valores que contribuem para a coesão nacional.

Reconhece-se o gesto da presença da Vice-Presidente da República, Esperança da Costa, na “Missa de Corpo Presente”, contudo tal presença não diminui o valor simbólico que reveste uma mensagem proveniente do mais alto magistrado da Nação. Dom Zacarias Kamwenho presidiu à Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e ao Comité Ecuménico para a Paz em Angola (COIEPA), entre 1997 e 2003. Neste mesmo período, presidiu igualmente à Arquidiocese do Lubango, onde permaneceu até 2009, antes de se aposentar aos 75 anos.

A questão torna-se ainda mais pertinente quando recordamos a recente visita do Papa Leão XIV a Angola e a centralidade da sua mensagem de reconciliação, diálogo e fraternidade entre os angolanos. Afinal, de que serve acolher, exaltar e mobilizar os meios públicos de comunicação social para coberturas de feição quase megalómana dessa visita histórica e da sua mensagem de concórdia, se, nos momentos concretos em que ela deveria manifestar-se através de gestos simples, prevalece a indiferença? As palavras só ganham densidade política quando encontram correspondência nos actos; sem essa coerência, as proclamações transformam-se em meros exercícios de retórica, incapazes de produzir impacto real na vida pública ou de sustentar a confiança dos cidadãos nas instituições.

O que verdadeiramente preocupa não é apenas o episódio em si, mas aquilo que ele pode revelar sobre o estado de espírito de uma liderança que parece cada vez mais distante das sensibilidades colectivas do país. Angola necessita de dirigentes capazes de compreender que a autoridade política não se mede apenas pela capacidade de exercer o poder, mas também pela capacidade de reconhecer, valorizar e homenagear aqueles que ajudaram a construir os alicerces morais da Nação. Quando essa dimensão humana se eclipsa, o país corre o risco de entrar numa regressão silenciosa dos espíritos, onde a impassividade substitui a empatia e a indiferença ocupa o lugar da grandeza; e o custo dessa regressão, embora difícil de quantificar, acaba sempre por ser pago pela própria sociedade, através do enfraquecimento dos laços de confiança, do agravamento das divisões e da erosão progressiva do sentido de comunidade nacional.

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